quarta-feira, 28 de abril de 2010

Intensidade. Fantasmas. Heranças

Em todas as transferências afetivas que fiz: a intensidade. E, por isso, eu não saber conduzir as minhas palavras, transformando a ação em frustração. Ainda assim, não viro a página remexo em erros como quem revira vísceras, tendo uma falsa ideia de que estou apenas rememorando para não repetir erros, e me perco como um Minotauro. Por isso escrevo, como quem deixa marcas no caminho. Como quem quer provar a si o que se é, mesmo não sendo. Sempre para provar a mim. Sempre a provar a mim mesma com simbologias cujo significado nem mesmo sei. O que falo não é o que eu quero dizer. Não existe intencionalidade, é como se não soubesse a onde vou chegar. "Quando o poeta diz lata pode estar querendo dizer o incabível" (Giberto Gil).

E todas as confusões que faço fazem também uma confusão sobre o outro. E outro pode também agir de maneira esdrúxula, reticente e confusa. Sensações de fracasso são recíprocas, é falsa a ideia de competição num relacionamento seja ele qual for, o máximo que pode haver é um que goze mais e melhor com a dor. Ou quem está de corpo aberto ou com uma armadura. A tal expressão "a fila anda", como se tudo se transformasse em quantitativo é mera mitologia moderna, pois a fila é a própria simbologia da inércia. E a inércia que anda é a própria simbologia do fracasso em qualquer relação: de trabalho, de amor, psicanalítico, enfim. A tentativa de esquecimento é tão nefasta quanto a minha tentativa de revirar vísceras. O problema não está na recusa, mas em como a recusa é feita.

E se a gente for pensar a recusa a partir do ponto de vista historial, a nós, brasileiros, esta vem se sedimentando há séculos, anos de massacres diários, onde somos obrigados a partir sempre, sem muitas explicações, sem dar adeus, sem deixar flores ou recordações. Esta ausência pode ser chamada de indiferença. Admitamos: somos um povo sem elos, apesar dos nossos pesadelos recorrentes, apesar dos nossos imbróglios interpessoais. O que fizemos com o degredo ibérico, a dolorosa partida dos povos africanos e o genocídio tupi-guarani? Somos ainda uma mistura disso.

Não é um problema pessoal seu ou meu. Meu grande sonho e objetivo nesse mundo é tentar reverter, ao menos minimizar isto. Que seja apenas em uma micro escala, na esfera das minhas relações pessoais. Por isso não me sinto ridícula ou estúpida por, de súbito, trocar experiências distintas de vida, só assim eu acho que faz sentido viver. De outra forma não é viver, é sobreviver. É estar presa a procedimentos técnicos racionais que não servem para libertar e emancipar, mas tão somente para condicionar e adestrar.

Quero acreditar que eu posso fazer diferente. Vendo minha herança não como um fantasma, mas como um vento que muda sempre de direção.

domingo, 25 de abril de 2010

IBÉRICOS

OS NAVIOS VEM E PARTEM
MINHA CABEÇA NO MESMO LUGAR
PRESA NO CORPO
PRESO NA TERRA
A MURALHA ESTRAÇALHA
QUALQUER COISA QUE QUEIRA: MUDAR?

DOU A CARA A TAPA
JÁ NÃO DIGO SIM
MINHA VIDA É UM JOGO
TRAÇADO SEM MIM

DIGO ADEUS E NÃO VOU EMBORA
A MORTE CHEGA LENTA PELA TELEVISÃO
PELA GELADEIRA
PELO ARMÁRIO
E POR OUTRAS COISAS QUE A NATUREZA CUSTA A RECICLAR

A SODA CÁUSTICA COME RÁPIDO
O QUE A PALMA DA SUA MÃO FEZ TÃO LENTAMENTE
A PERFEIÇÃO, O LÁPIS DE COR - ROSA, VENTO ...

VEJA A BAÍA SEM SANTOS
FANTASMAS DANÇAM DOIDOS
FINGINDO LHE DEIXAR FELIZ
NESSE LUGAR DE LUZES AMARELADAS
RUAS ESCURAS
E LADEIRAS QUE LHE DEIXAM EXAUSTO
NOS MASSACRA O SAMBA
PARA ESCONDER ESSE CLIMA DE FADO

TOCA UM SAMBA SEMPRE
A FIGURA DESDENTADA
ESCONDE O CHORO NA CACHAÇA PURA
MORRE DISTANTE...
NÃO DIZ ADEUS

...DIGO A VOCÊ QUE SIGO FELIZ
REPITO PRA MIM QUE ISSO É VERDADE
DIGO A VOCÊ QUE SIGO FELIZ
REPITO PRA MIM QUE ISSO É VERDADE
E VOCÊ, CANALHA, ACREDITA ...

BRECHAS DO ENTARDECER


Foi lá e não comprovou
O medo da coragem
Olhos vendados
Fechando janelas, não há entardecer
Dias, dias, dias ...
Sombras testando reflexos tortos
Membros desconexos
A dança, os copos, a queda
Um toque abrupto
Vidros estraçalhados ameaçam
Todo mundo quer uma bomba atômica na mão
Para valer suas verdades
Todo mundo faz roleta russa
Um sim, um não, um sim, um não
Brechas do entardecer
Pétalas de um mal-me-quer
Um ruído escapa
Por uma brecha
Um sentimento

DOORS

Os meus olhos míopes transcorrem imagens
E ainda de manhã, ônibus tremulam paisagens
Semeando fumaça em muros e narinas
Vejo o que tenho: está aqui
Bato naquele meu lado esquerdo que me deixa tão nervosa
Com mistérios
Dúvidas
Certezas
Clarezas
Clemências
Acompanho noticias e canções
Sequestros e casamentos
Pés rápidos e inertes
Dias úteis e inúteis
Tudo ligeiramente belo
Tudo ligeiramente sujo
Eu fico contente por agora excluir dualidades
Bem mal
Belo feio
Limpo sujo

Os meus olhos míopes procuram luzes e paisagens
Dias úteis e inúteis
Vejo
O que tenho está em mim
Toco o meu lado esquerdo e percebo.

ECO ESCURO

De tantas costas
Já nem me importo com você
Estes seus olhos tão grandes
São super-heróis invisíveis
Sempre à espreita
Desse meu esboço de corpo
De tantas portas
Já nem passo por você
Cadafalso falciforme ambulante do amor
Você só me quer torto
Você só me quer morto
Você não me quer mais
Eu peço à vida nem tão longe de mim: CIDADES!
Infortúnios do meu ser
Que nem mesmo é
Dói a angústia de você me alienar
Passarelas
Viadutos
Galerias vazias são o meu lar
Você que tanto amei odiei matei
Para viver um pouco mais
Seu couro oco é duro e não me dá passagem
Sou eco escuro sem meias mensagens
Sou esboço
Sou esboço
Sou esquina
Sou seu nada, meu amor escória
Cidade
Ciladas
Acasos previsíveis me perseguem
Com seu rastro vermelho vermute e nada anil
Você é
Eu estou.

Fábula de domingo

Ele não era chegado ao jeitinho brasileiro
Sua malícia no pé
Sua emoção do esquerdo
Era pra fazer decente
Andar correto, direito
Era menino respeitado
Não dava mancada
Não dava furada
Pois sabia
Só teria uma vez
Não podia haver talvez
Por certo não queria ser freguês
Ele acreditava que podia dar certo
O seu trabalho
Os aliados
No seu domingo o mutirão
E os chegados para o feijão
Tava cansado do aluguel
Queria viver bem
Não esperava cair do céu
E na semana como boy
Trabalhava, dava duro
Ao contrário do playboy que come, dorme, suga tudo
Era um cara inteligente
Não esperava o presidente
Mesmo ganhando pouco
Matando cachorro a grito
Foi comprando os tijolos, o cimento e o granito
E no domingo de sol
Empolgado com razão
Trabalhava em sua casa e não para o chefão
Ia fazendo o alicerce
Lado a lado os camaradas, os seus primos, os seus irmãos
Num trabalho coletivo, frente-a-frente, construtivo
E tudo o mais e mais que nunca
O domingo era o mais esperado dia
Prosseguindo numa segunda, pegou seu ónibus lotado "Lobato - Lapa"
Ia pegar no batente, era normal comumente
Mas enquanto batia o cartão, foi chamado ao setor pessoal
Já imaginou o que era
Muitos colegas já tinham tirado
Demissão, ele foi o sorteado, megasena de empregado
Ficar na rua, parado, de bobeira, desempregado
Ele não entendeu, o fato que aconteceu
E sua cabeça sob o sol quente estava
Faiscava
Atordoado caminhou
No subsolo da Lapa esperou a condução para casa
Lágrimas em seu rosto
Seu rosto, agora menino
Era correto, tinha zelo, não era cabeça de gelo
E em sua pouca idade, a ira foi lhe tomando
Chegando no bairro, foi logo para sua construção
Sentado nos alicerces
Chorando sem parar de pensar
Que só existia duas formas
Trabalhar e lutar ou
Roubar e matar
Ele ficou ali por um tempo
Irado, muito sentido
Com a cabeça baixa, muito triste deprimido
Talvez com um sonho perdido
E muitos jovens de hoje se perdem, se desesperam
Com seus sonhos indo embora em uma torrente de miséria
Aquela conversa de "Brasil é o país do futuro"
É conversa pra malandro que nunca soube dar duro
Ou de quem fica esperando do céu conversas pra boi dormir
Ou desgraças para sorrir
E para qualquer coincidência é mera semelhança
E a trama acaba aqui
Nada foi resolvido
Nem o mocinho matou o bandido
Nem o galã ficou com a princesa
Nada disso aconteceu
Foi mais uma pegadinha para lhe dopar em seus domingos.

Uma noite qualquer, num instante em que você quer estar feliz


Se fosse uma verdadeira crueldade
Não incomodaria tanto
E querer se vingar agora
É um capricho estúpido e mesquinho

Quantos já cantaram o amor e a amizade?
Às vezes, farsas, pactos de mediocridades
"Eu lhe aceito, você me aceita"
Muitas máscaras para encobrir grandes defeitos
O lítio, o prozac recheiam aqueles grandes amores falsos
Um ponta pé na cara e um sorriso de contemplação
E seu corpo ali cansado
E você ali delirando
Sem a permissão da sua mãe
E alguém ali do seu lado ainda espera que você diga:
"Tudo bem, você é genial, mesmo dentro do banheiro, esfregando a cara no espelho"
E se isso não acontece:
"Oh, sinto muito, tchau"
Nada mais previsível que esta miserável união
Alguém querendo que você diga: "tudo certo, tudo bem"
Mas, se não...
Se você fica ali delirando sem a permissão da sua mãe...
...você já não convem
Mas, querer se vingar agora é uma capricho estúpido e mesquinho

Porque não, não
Não é verdadeiro e cruel
Vai matando lentamente
Aos que vão trabalhar cedo
São as pequenas dores
São as pequenas dores
...e no outro dia, a ligação é para você
...e você aceita o convite para sair
Mas você sabe, não deveria ir
Mas talvez você já não consiga dizer não às pequenas dores

Em caso de incêndio, deixe queimar!
































"O que fazer em caso de incêndio" é uma comédia anarco-existencial que brinca com o destino da juventude do final dos anos 1980. O cenário é uma Alemanha ainda com o muro de Berlim, quando jovens ocupavam casas abandonadas e ali produziam música, filmes, ação direta contra o sistema e muita intensidade em suas relações de vida.
Mas o tempo passa ... e até mesmo aquele que antes bradava com um mega-fone contra a polícia, agora vocifera em sua empresa de publicidade que "ama o seu carro, o seu telefone celular, a sua cobertura", enquanto veste uma camiseta declarando seu amor a Bill Gates - o que é para um jovem que já foi anarquista uma brasflemia.
Centrado na vida de seis jovens que, há doze anos, colocaram uma bomba em uma mansão e que só após esse período é acidentalmente detonada, o enredo nos instiga a pensar: passamos incólumes pelo nossos passados?
Agora, apesar de alguns deles renegarem a vida pregressa de atuação anarquista, são forçados a se reencontrarem para traçar um plano que os proteja da polícia. As diferenças são evidentes e os diálogos são os mais hilários.
O momento indica "agora, a guerra não é entre ricos e pobres, mas entre vencedores e pobres diabos que não se venderam". O que você faria com o seu passado anarquista lhe batendo à porta?

Título: "O QUE FAZER EM CASO DE INCÊNDIO" (What to do in case of fire?")
Dir.: Gregor Schnitzler
Roteiro: Stefan Dahnert e Anne Wild
Elenco: Til Schweiger; Martin Feifel; Sebastian Blomberg; Nadja Uhl; Mathias Matschke; Doris Schretzmayer e Kalus Löwitsch
Alemanha, 2002, 100min.
SINOPSE:
Quando uma bomba colocada há 12 anos em uma mansão abandonada na cidade de Berlim explode, todas as evidências levam a um grupo anarquista que existiu no final dos anos 1980. Enquanto a polícia investiga, os ex-rebeldes se reúnem pela primeira vez depois de 12 anos para idealizar um plano que os proteja. Mas as faíscas começam a se espalhar quando as pessoas do grupo tem que conciliar ideais da juventude com a vida que levam atualmente, além de terem que lidar com as relações pessoais que tinham naquela época.

CADA CARA

As óbvias perguntas são como as tiranias dos fatos. O duelo da doce vontade de fortificar a personalidade contra a dureza de tocar os dias, as contas, as dores. No princípio, o precipício atraía e trazia verbos de imprevisibilidades. No meio, cada dia-a-dia era o precipício e, em cada rosto, um fantasma que quer agarrar e torturar.

Os ossos estão formados. A expressão no rosto esconde o coração que caminha pro enfarto. Você já sabe como ter o pão, o leite, o "gim das crianças". Anda, se defende, e em algum tempo já se volta contra o chão, colchão de espuma e solidão. Pensa, não corta os pulsos, mas hesita em viver. Está no meio, no meio da vontade, metade do desejo. Quer esmurrar a parede, as espumas são piores que as amarras - esses carbonos loucos. Ninguém lhe ouve, paredes de espumas.

Nenhum corpo cai naquela noite, daquele prédio. Pra aquele homem, as estrelas quando caem não tem mais força poética. As estrelas no céu, quando tem força poética? Não pensa, age, é quase patético e vai se vestir. Vai à benção todos os dias, ao Senhor Deus do Trabalho. Ovelha pálida. Não seria justo dizer seu nome, sua raça, em qualquer lugar você é o mesmo, com seus medos. Você é 30 bilhões de pessoas. E quando do precipício não ecoa mais surpresas, o fantasma é cada cara, é o começo, o começo do fim.

Gardenia Dultra, setembro 1998.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

HOTEL DE ESTRANGEIROS

Uma alma fragmentada, o que fazer senão voltar a um provável início? A vela acesa, a chama ilumina a casa para dali promover não fatos, mas estados alterados d´alma. A música foi ganhando tudo e, a cada passo dado, um cheiro de infância, infância não nostálgica, mas historial. A cidade pequena foi a única a dar sensações profundas para aquela mente quase decapitada pela vida prática e quase estéril da cidade mais agitada da província.

A casa do Senhor da Estação estava intacta e agradavelmente velha. Olhando aquela sala, a mesa sem pintura, as velas, as cortinas encardidas tremulando pelo vento trazido pelos trens; era um grande retorno n´alma.

Para a sua geração, a moça estava distante dos tipos que a época proporcionava. Muito pensativa e centrada para as tagarelas da província e sagaz para as cortesãs dos senhores. Vivia como um ser distante, como um ponto de chegada e partida, talvez influenciada pela infância na casa do Senhor da Estação.

Ali, quando criança, corria para a estação logo quando ouvia o apito do trem e olhava atenta os vagões e suas cargas, seus caixotes, suas malas de madeira. Os passageiros trazendo o olhar distante e triste de quem deixou alguma coisa para trás. Aqueles crianças sentadas sobre os caixotes , as mães a olhar para o tempo interrogativas e os homens aquecendo o corpo com aguardente de cana. Era interessante, nenhum ficava completamente ébrio, não se deixavam ficar, e assim que ficavam com os corpos ardentes, tomavam suas bagagens e quase sempre comentavam que iam conseguir.

Como ela olhava invejada para aqueles meninos que corriam astutamente para pongarem no trem - como queria fazê-lo. Mas não podia, morava na casa do Senhor da Estação. E, além, era uma menina, todos reprovariam.

Olhando a estação através da janela, da música, das velas, ela retomava a mesma emoção que lhe preenchia quando antes da sua primeira despedida. E era pra isso que tinha voltado, para recobrar o impulso, a determinação que havia perdido para voltar e lançar-se em um mundo afiado. Queria recobrar esse impulso, já que ela agora estava arrefecida, desintegrada, quase decapitada.

Só através daqueles cômodos, daquela estação, estaria recobrando a sua própria história e um motivo para estar viva, confiante, altiva.

Foi na casa do Senhor da Estação que determinou-se a não servir como cortesã nem para conviva provinciana. Tomou sua valise e adentrou o vagão mais simples do trem onde todos falavam alto dos seus próprios planos de partida e dividiam alimentos. Todos rumavam para São Carlos, a capital da província. Foi naquele vagão que soube do Hotel de Estrangeiros e na chegada a São Carlos se dirigiu para lá.

Sabia muito bem o que buscava em São Carlos: queria lançar-se às letras ou dar a vida por uma causa. Como a Madame Juju havia sido cordial para com ela no Hotel dos Estrangeiros. Aproveitando o abrigo, começou a pensar numa forma de conseguir uma colocação já que não trazia consigo uma carta de recomendação. Ali, na cidade de São Carlos, exceto no Hotel de Estrangeiros, não passava de uma forasteira.

Dia e noite tomava a sua mente a necessidade de trabalhar para se manter. E, aos poucos, a pretensão de se dedicar às letras ia ficando longe, como o trem e a casa do Senhor da Estação. Apesar de no Hotel de Estrangeiros passarem muitos jovens intelectuais, nada conseguia para si como uma colocação. Já devia dois meses a sua vaga, mesmo, se achava angustiada e sem forças para buscar. A sua alegria havia partido e apesar das fonfarrônicas conversas no Hotel, já não encontrava motivo para contentar-se. E, o que, a princípio, achava gracioso e erudito nos jovens que ali frequentavam, agora lhe parecia falso e grosseiro, já que todos ali eram filhos bem nascidos das famílias dos Gerais. As moças, apesar de conhecedoras dos assuntos da época, ainda se apressavam a enfeitar-se e abluir-se para os jovens educados e gentis.

E ela não contava com ninguém, além da simpatia gratuita da Madame Juju. Agora, a única coisa que podia fazer era recordar os olhos tristes, a capa preta do Senhor da Estação e suas palavras: "para os que sofrem: a sua terra de origem". Mas para ela seu lugar de origem eram os trens indo e vindo. O vento ainda soprava as cortinas e, como quando menina nas noites de luar, ela abria as janelas e tocava um velho bandoneon, ela contemplava a noite na estação, a capa do Senhor e seus olhos tristes arrancando pra si inspiração para a vida.

Nos outros aposentos do Hotel de Estrangeiros comentavam-se que ela enlouquecera. Ela, os trens, os olhos e a capa preta do Senhor da Estação.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Rapiado

É aprisionado pelo metrô
Vai à tevê procurar o seu amor/valor
Fala do nordestino como um grande salafrário
Mas não sabe a causa de seu baixo salário
Não acredita em nada
Apenas tem fé
Vira estatística
Mais um objeto qualquer
Que não sabe a sua história
Que não sabe o porque
Talvez pra comprar o pão
Ou pra trabalhar pro patrão
E levar mais uma vida vazia
Correria, correria, correria
Um objeto qualquer
Como seu pai espatifado no chão
Menos um pai
Mais um morto
Mais um filho torto
A se virar como louco
Mas ele não quis saber
Mas seu avô veio um dia trazendo o maculelê
Ele queria era caçoar
É nordestino, preguiçoso
É nordestino, horroroso
Mas ele não quis saber
Correria, correria, correria
E ele se achava esperto por nunca ter ouvido: "menino, caminho da roça"
Mas mesmo trabalhando duro em seu caminho tava a ROTA
A lhe pedir documento, dar batida em sua casa
A virar a casaca, dar palpite, coisa e tal
Mas ele não quis saber
Mas seu avô veio um dia das bandas de Mucugê
Ele queria era caçoar
"É baiano, preguiçoso, vagabundo, horroroso"
Assim, podemos ver que esse tal sujeito
Renegou o seu passado
Cuspiu na pia de prato
É um traído traidor
Um enganado enganador
Mas se for pra revirar tudo vira conversa comprida
Muito chata e repetida
E esse tal sujeito é um homem nacional
Que renega a sua história, e o resto, etc coisa e tal.

Tevê eixo Rio - São Paulo

Pronunciando frases conclusivas para questões complexas, Boris Casoy vai com seus comentários simplistas anunciando fatos do Brasilzão. O apresentador inaugurou o formato de ancoragem nos telejornais brasileiros, que antes dele resumiam-se ao formato pseudo-imparcial de noticiar. O irmão mais velho dos telejornais - o Jornal Nacional - foi forçado a mudar sua identidade por tantos anos anunciada por Cid Moreira e seu vozeirão. Mas pouca coisa mudou, ainda fala-se de forma centralizadora - eixo Rio-São Paulo - para todo o Brasil.

Boris Casoy com seu paulistês vai fazendo comentários que se pretendem esclarecedores e politicamente correto, tais como: "violência gera violência"; "isso é uma vergonha", e outras exclamações que assistidas sob uma ótica levemente mais aguçada tem-se a constatação que as classes formadoras de opinião em pouco diferem do público médio quando aprisionado no trânsito xinga impotente a mãe de todos.

Casas populares

Todas as casas iguais e moradores com um lance de solidariedade dos que nada tem, suprindo a necessidade um do outro. Casas pequenas, chamam-se biongo, na gíria da galera: portas de ferro, venezianas de ferro e vidros psicodélicos para serem pagas a tempo perdido ao governo, que oficializa a homogeneização pela denominação "moradias populares". Poucos estão satisfeitos em morar por aqui e a juventude é sem trabalho e com muita doideira todo dia: cachaça, maconha, crack, rap e reggae. De boné, à noite, vem de montão no point da esquina. Muito grilo cantando e a fumaça subindo. Muito louco saqueando casa fechada pra comprar os lances que eles precisam "na hora". Já sabe, né? Vida de maluco não tem parada certa, e isso aqui só funciona na cabeça do governo, pra um objetivo bastante imediato: acalmar os ânimos. O tempo segue em frente e eu já vejo no passado o futuro de poucas possibilidades. Talvez São Paulo, talvez Salvador, talvez. E outras moradias populares...

Espelho

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh....!!!!!
Agora vou encarar você, Gardênia. Onde quer que você esteja, já não tenho mais medo de você. Fecharei os olhos, para depois olhar no espelho, para tentar descobrir um pouco mais sobre você. Não, não, não se espante comigo, agora falo para quem quiser me ouvir. Quero poder tocar a sua mão, olhar nos seus olhos - eu sei o quanto falo de clichês.

Agora, somos uma só. Mas depois eu me volto contra você e lhe deixo falando sozinha. Mas depois, largo tudo pra lá, e vou encontrar outro alguém para falar sobre você. Na verdade, somos nossas piores inimigas íntimas. Somos a água e o óleo, ainda assim somos uma só.

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh....!!!!

FOGO

Foto: Gardenia Dultra

Quero vida
Quero fogo
Quero ver a madeira gemer!

Um Vácuo Árduo

Por que o medo de tudo agora?
E você
Onde passou?
Por onde vai ?
Só.
E eu?
Não sei
Porque um medo
Um nada
Um vácuo árduo
O medo enfim
Só
E eu?
E você?
Alguém?
Onde passou?
Onde vai?
...não sei...

Gardenia Dultra, 1993

Zaz traz

os paralelos controem-se
o mato nasce por si só
as abelhas voam ao nosso redor
ferroada
as cabeças nos trazem ao mundo
mas o mundo não traz o que a cabeça traz
zas traz
ferroada
será difícil tirar os ferrões
a cabeça em decadência não enxerga os paralelos que se constroem?
até quando cantaremos o fim dos tempos?

Gardenia Dultra, 1989.

INVASÃO

Muito mais que um aglomerado
A se estrompar
A sofrer
E a trampar.

Trampolim da metrópole.
Fábricas.
Supermercados.
Ruas
Casas.
Edifícios.
Carros.
Aviões.
Mangues e esgotos

Esgotos industriais
Que invadem as ruas da invasão
Que leva o nome de um senador.

1989.

CORPOCIDADE

Tudo que tem importância é papel sépia
Traças e caracóis de pensamentos
Revólver sem nem pedir desculpas
Você assim faz
Como um franco atirador de imagens
Como fraca refletora de si
Você assim faz, mas nem sabe
É falsa a ideia de te ter pra sempre
Nesse vício, as virtudes são heróicas
Mais uma vez grito seu nome
Você amplificadora nossa
Caixa de ressonância de abismos
Lacre da felicidade alheia
Salvaguarda do éter da inveja
Que viceja em móveis corpos
Mobile phones são teu refrão:
Cidade Morta
Cidade Adeus
Cidade Carne de mães alucinando filhos em preces nunca ouvidas
Quando o assunto é desabamento
Quando o assunto é contenção, não encosta
Sou teu arco, arpoador
Sou tua glória, teu orifício
Canabrava de badameiros e pérolas cultivadas
Sou teu perfume chanel quebrado nas escadas dos teus prédios
Sou o inferno da tua ceia repleta de sonhos americanos
De tantos plásticos brancos
E as bandeirolas são cadáveres do ritual cabloco que você chacinou
Sou bola e neve
Sou nuvem e céu
Sou sol e chuva
Sou a condensação do nada
Por ter tudo, você se diminui
Como um anti-fermento infernos de crianças iluminadas por restos de drogas
Que colam a tua mobília super-luxo
Sou éter do cadáver, feto, mal vestido e torpe
Sou teus filhos apátridas
Sou pastor da ovelha negra
Sou um negro quase branco de tanta palidez de vísceras vermelhas
Sou imortal, pois que sou tua peste
Pois que sou o teu não querer ser, assim teu infinito
Não precisa ter rosto, não precisa ter voz
Eu sei, você sempre se faz de desentendida
Como é próprio das damas vitrines
Sorrisos plásticos são moda: vão e vem
Como você que insiste em sempre ser
Mesmo tão distante de mim e de outros milhões de cajazeiras
De olhos Vesúvio
Você é cidade
Eu, apenas corpo
Você, voz da voz
Que eu até queria ouvir para uma acalento
Você é um querer sem nunca ter estado
E eu conheço artimanhas do subproduto de teus meninos senis, como eu
Envelhecidos prematuramente por nefrites e outras pneumonias
Sem nem sequer pneumáticos preservativos
Por que você me pariu?
Parta!
Ponta de lança presa aos meus fragmentos.
Arraste-me por eras
Esqueça teus fósseis
Eu sou novo e sou um deles
Certezas da metafísica da tua miséria
O teu querer ser constante
A tua ébria lucidez entorpecente, pois necessitas
E eu? Mais nada
Eu, mais nada que essa chuva ébria.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Fall american dream


Imagem



Documentário de Michael Moore "Roger and Me", realizado em 1989 já mostrava a decadência de Detroit, cidade símbolo da GM e, por conseguinte, da indústria automobilística. Mais uma porrada no american dream: por que continuamos correndo atrás dele?






Fall american dream 2
















Detroit.


Créditos:

Enquanto isso, na sala de aula:
- Hello!
- How are you?
- I´m very well. How are you?
- I´m very very well, thank you.
- Are you learning English?
- Yes, I am.
- Do you have a book?
- Yes, I have a book.
- Good. Where is it?
- Here it is.
- Where?
- It´s on the table.













segunda-feira, 19 de abril de 2010

Stroszek


Melancólico, arrebatador. Um radical e sútil manifesto contra o adestramento promovido pelo sonho americano. Stroszek é de uma poesia avassaladora, com seus personagens excêntricos e marginalizados pela Pavlov society. Mais uma obra do brilhante Werner Herzog . O final com a "dança da galinha" é tragicômico. Uma produção alemã de 1976.







Alien: O oitavo passageiro







Além de uma intrigante história de ficção científica e terror, Alien é uma obra de arte. Contou com a inspiração dos artistas H.G. Giger e Jean Moebius Giraud.
Alien, 1979. Inglaterra e EUA.
Dir.: Ridley Scott
Rot.: Dan o´Bannon e Ronald Shusett.


fahrenheit 451






Um mundo sem livros. A supremacia da imagem. Onde todos serão vigiados por todos para: NÃO LER. Ainda assim haverá um refúgio, onde o fugitivos adotarão um livro como sua própria biografia. Eis Fahrenheit 451, dirigido por Fraçois Truffaut e baseado no livro homônimo de Ray Bradbury

















Um samba tipo Leci

Pega o barco à vela.
Samba, chora, ri.
Ama na minha que a vida navega.
Sentimentos não dão trégua.
Puros nas minhas veias, amor.

Vou descendo todas as ladeiras da cidade pra ti.
Não, não esqueci das injustiças que rolam por aí.
Cidade louca e sol.
Escaldam a minha, escaldam a minha mente.
Mas contigo, eu já sei, eu sigo em frente.
Escorrega comigo.
Brinca comigo.
Luta junta comigo.
São Sebastião em 20 de janeiro vai nos proteger de todas as flechas.
Sebastião, padroeiro nosso, nossa cor.
Amor de cores, amor de morro.
Amor de morro de amor por ti.

Refrão:
Pega o barco à vela.
Samba, chora, ri.
Ama na minha que a vida navega.
Sentimentos não dão trégua.
Sentimento puro em mim.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

PEQUENO

Quando abri os olhos eu já não estava lá. Além da dança, as calçadas estavam vazias e brilhantes como rajadas de luz. Nem me lembrei dos transformers, eles pareciam tão impalpáveis e meu corpo dançava ao som da luz de postes de borracha. As minhas mãos eram só fogo na fragilidade que você jamais verá. Minha barriga era uma bateria de sons absurdamente soturnos, mas, mas, mas eu tentei, eu tentei, eu tentei passarelas até você, até mesmo quando você já não estava lá. Suas palavras nunca foram doces e eu nunca tive doces para me consolar, só o sol, a chuva e as sirenes vasculhando meus rastros. Mas eu tentei e segui, com baforadas do vento frio na cara e meus braços gelados agarrando meu corpo fugitivo. Nem balões rosas nem briquedos inofensivos, meu corpo desafia sua tranquilidade, e nem mesmo vi escrito por aí sutilidades. Mas meu corpo é leve e portátil com meus papelões casa-cama-refúgio. Sou tua sombra, sou tua sobra, sou teu desssabor, dessa boca que jamais dirigirá a mim palavras, dessa boca balão rosa de fantasias senis, dessa boca chocolate de sorvete enquanto degusto minha ausência. Porque ainda sobrevivo ao toque de recolher e minhas moradas estão por todas as ruas sem cidade, sem mocinhas a passaear com brancos cachorros leitosos. Meu leite é meu veneno, mas eu tentei até mesmo quando já não tentava nada.

quarta-feira, 3 de março de 2010

PARTNER

VAI, FINCA A TUA DOR NO CHÃO E VAI EMBORA SEM ELA.

VOMITA TUAS PALAVRAS NUM SONHO E VOLTA REVÓLVER CHEIO DE ALÍVIO E LUCIDEZ.

ERGUE TEU CAMINHO COMO BANDEIRA HASTEADA SOBRE AS CINZAS E SEGUE SEM PALAVRAS COM SINFONIAS A TE EMBALAR.

CORRÓI, ESQUECE, COLABORA CONTIGO MESMO. SOZINHO E AFLITO. CHORA, MENINO E SEM PEITO PARA MAMAR.

PREPARA A TUA MUNIÇÃO: TU, A VIDA, E TALVEZ MAIS NADA.

NÃO FAZ ASSIM: ESCONDENDO-TE NESSA MULTIDÃO. DESCOBRE A TUA FORÇA. DESCOBRE A TUA GRAÇA. O QUE TE FAZ BEM PODE ALEGRAR O MUNDO TAMBÉM.

NÃO COMPARE, COMPREENDA. O MUNDO NÃO SE ALCANÇA PERDENDO-TE EM ALUCINAÇÕES.

MESMO QUERENDO O TANTO QUE TE FALTA, É POSSÍVEL NÃO SE PERDER EM COISAS VAGAS. ALGUÉM AINDA PODE TE OUVIR MESMO QUE EM ECOS.

SE ELA NÃO É TUA, COMO TUAS AS PALAVRAS, ESQUECE AS DEFINIÇÕES: ELAS NÃO SÃO CLARAS.

NÃO TE FAZ DE MINOTAURO PERDIDO NO LABIRINTO DAS TUAS PRÓPRIAS
VÍSCERAS.

ÉS.
ÉS.
E MAIS NADA.

ASSIM COMO EU, ESTAREMOS SÓS, AINDA QUE ACOMPANHADOS.

O TEU OLHAR É BELO.

O MEU OLHAR SOBRE ELE É REAL.

INCONCLUSO E FRUSTRANTE

Tire a camisa de força.
Quero a liberdade, sou apenas um louco.
Ponha uma camisa de força,
Não agüento a liberdade, sou um louco.
Atire o preço de cada praga que se escolhe.
Faça uma liquidação em praça pública.
Solte todas as grades das feras,
E faça delas protagonistas de propagandas de margarina.
Arrume a casa e não esqueça o principal:
estraçalhe na parede as flores do vaso.
Em seguida, faça alguma coisa pelo nosso amor, dê um tiro bem dado no televisor.
Rasgue sua cara no espelho.
Cuspa o que sobrou no prato e decore com ervas frescas.
Bote preço na sua dignidade, quero comprá-la,
e largá-la num canto como um livro não aberto;
é apenas um capricho
Também estou aprendendo com os tubarões:
a cuspir e escalpelar na hora da sobremesa.
A refeição principal é o riso das torturas que se farão a seguir.
Mande alguém atrás de mim,
mas sem flores, obrigado.
A sua vil delicadeza já fez o necessário estrago.
Agora perfume-se no melhor francês,
esteja bela para o feio, o sujo, o perverso.
O fim é assim inconcluso e frustrante

O8. 04. 2004
GARDENIA DULTRA

terça-feira, 2 de março de 2010

SEM AIR BAG

CORRENDO ALTO SEM AIRBAG.
BABY, DAQUI A CIDADECONCRETOCHUMBO É DE ALGODÃO.
ENCHARCADO DE SONHOS POSSÍVEIS.
NÃO TENHA MEDO
DÊ-ME A SUA MÃO, PALMA PLANTA ...CHÃO.
MEU CORAÇÃO CORRE ALTO SEM AIRBAG
SEM JURAS, ME NAMORE
SEM JURAS, ME DEVORE
CORRENDO ALTO SEM AIRBAG

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Janelas sem perspectivas

Quando não há remédio.
Quando as ladeiras de Olinda já não trazem Cantigas e Maracatus.
Quando na ausência há necessidade de presença.
Quando as pedras rolam, rolam ladeira abaixo levando na sua enxurrada o fogo. O fogo e a casa. A casa e o fogo do louco.
O louco existe em seu anonimato escrachado. Excreção.
As janelas sem perspectivas mostram.
Mostram no fogo do louco

Por onde meus pés pensaram



Salvador simulacro


É tudo o que você deseja?
1. MacDonald Totem;
2. Carros, muitos carros;
3. Cidade ao fundo, sem incomodar

Salvador Duchamp

Ali no cruzamento do Campo Grande com a Araújo Pinho, Duchamp desceu.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Meninos de cádmio

Meninos catam por aí válvulas de cádmio pra tentar sanar a dor. Fazem do chão o seu paraíso precioso, catando pedras. São seres fantásticos que aparecem muito mais à noite, atirando por aí o seu anti brilho atómico. E eu estou aqui passando por debaixo de um viaduto, como transeunte, é claro. O que você poderia pensar?! Mas, eu poderia estar entre eles também. Porque este é meu tempo, este é meu mundo. Devo fugir ou ficar cega?

Cárie, care

Ela labuta com a bula na mão.
Bole na boca, lambuza os dedos.
Busca cérebro e coração.
Espatifa-se no chão

amor náufrago

Os infernos dos amores são barcos à deriva no mar, ..., são flores secas em sua mão esperando qualquer sinal de aceitação. Não, não foi intencional rimar esses âos, ãos, ãos, ãos, âos, foi atávico...
Mas o amor é isso. É o marzão; a paixão; o tesão; a solidão, a compulsão; a pulsão; a perdição.
E você, covarde, jamais esperaria de alguém tamanha coragem.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

coração doido

Um amor de inverno, trovoada, um amor de verão, barco a vela, e lamber picolé capelinha, um amor, tão indecifrável quanto o híbrido, tão certeiro quanto um alvo, meu coração " de tanto levar flechada" anda tão sensivelzinho, tão, tão pequenininho, a ponto de te acolher como ave recém parida, a ponto de te proteger como vaca parideira. é uma pena você não saber ...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

o caminho até o paraíso

para atravessar a trilha até o paraíso, temos que passar até os lobos. angel? dark? a torre de controle não aprisiona minha casa de pedras. no, no, meu amor perdido e preso na noruega. a caverna e o calabouço também estão pelos trópicos brasilis. a guilhotina está em todo lugar. quanto tenho que oagar para lhe salvar? os lordes te viraram as costas. só te resta a mim, mas eu, não passo te salvar. minha casa de pedras está segura, mas tão distante de você.

SETENÇA

NINGUÉM VIVE IMPUNEMENTE.
NINGUÉM!
ALGUÉM?
CÂNCER, CRATERAS.
BASTILHAS, BOTOX.
TEMPO, TIRANOS .
UM MURO.
UM ABISMO.
UM ALVO, UMA FUGA.
NINGUÉM VIVE IMPUNEMENTE.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

TÊMPORAS

Com os meus destemperos, sofro eu.
O gosto do tempero amargo.
Tempo perdido rumina na boca.
Temperos de um tempo não linear.
Ter tempo espero, com erros e acertos
Eros.

Destemperos dessa têmpora febril.
TEMPO HÁ

sexta-feira, 12 de junho de 2009

LUGAR AO SOL?


LUGAR


ONDE ESTOU QUANDO NÃO ESTOU? O NÃO LUGAR TEM SIDO O MEU LUGAR. UM LUGAR SEM NOME. SEM VIZINHOS, SÓ TANGENTES, OUÇO LATIDOS AO LONGE, CRIANÇAS GRITAM BRIGAM BRINCAM E CHORAM ... TÃO PERTO... TÃO LONGE. MÁQUINAS CONTINUAM FURANDO E TAPANDO PAREDES, HOMENS DESTROEM ANTIGAS CASAS E ERGUEM PRÉDIOS FUNCIONAIS... ESTOU LONGE...PERTO, NÃO ESTOU E DEIXO UM RISCO NO CHÃO, UM SULCO, UMA CRATERA, DEIXO PISTAS, ALI, QUEM SABE UM DIA DESCOBRIREI QUE LUGAR É ESSE?




sexta-feira, 22 de maio de 2009

Extrapiramidais

Meus amores deixam rastros. Joãozinho e Maria vão, mas não acham caminhos e migalhas. Sou assim, uma incógnita, até a mim mesma, um cadafalso, um simulacro, um sofrimento sudanês. Uma falta irreparável. Um membro amputado e fantasma, que dói, dói, dói, dói. Somos todos tão tolos porque nosso português é tão complexo e sex e o nosso dia a dia é torpe é dinheiro é bravata é dureza é massacrar sonhos é explodir utopias. Síndromes extrapiramidais, sei lá o que é isso, mas tenho, e muitas outras síndromes, dredomes, homens vestidos de putas lambem o sofá do chair man e sonham em se dar bemmmmmmmmmmmmm. A garotada de hoje não se contenta com pouco, e repetem letras, e reincidem em exageros e beijossssssssssssssssssssssssss. Eu? Continuo sonhando com a Cachoeira do Ferro Doido, e queda livre, e declarações tão lindas "sem você não viverei" Vouuuuuuuuuuuuuu com Vodu feira, carrinhos de bebês e Rosemarys. E esse corpo frágil que sonha em ser tratorttttttttttttttttttttttttt.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Salvador, terça feira, cinco de maio de 2009

Soltem os Trios Elétricos. Toquem Guitarras Baianas. Comam bananas. Masquem chicletes. Levantem poeiras ao som de pivetes. Não cobrem nada, nunca, de ninguém, somos, sempre, tão felizes. A cidade derrete, Salvador derrete. Não pensem que precisamos mudar. Estamos tão bem. Somos tão tolerantes. Somos tão perfeitos. Somos tão legais. Salvador derrete. Ao som de quem? Ao som da Ivete? Ao som do Chiclete? Ao som da Margareth? Ao grito do pivete? Ao som do marionete? Salvador derrete. Daniela aprecia da janela as ruas alagadas, os corpos nas valas, dores que lamas encobrirão, que não lembraremos no verão, quando cantaremos mais um refrão lalarararará "(...) atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu (...)" , "(...) nesta cidade tudo mundo é d'oxum (...)". E quando mais um corpo for enterrado, soltem o trio elétrico, e se reclamarem que não tem pão, digam pra comer brioches.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

DORES AMENDOIM

antes do vinho acabar, a noite já jorrava espumantes de velocidade. E nem eu sabia que existia além dali idéias a pulular em camas elásticas princípios carnosos cavernosos dessas tintas que mancham papéis para sempre sem ao menos pedir permissão para amenizar dores. ora vejo que francisco não era santo e que morreu na lemos brito, e depois consagrou a sua ida nos redutos facínoras de homicídios de jovens - as nossas BR´s. a cruzar brasis, pois não imagino a solidão no singular. nação que acolhe em marquises meninos meninas vendendo as suas próprias dores e amendoim. se pra quem compra é puro prazer atrás de postos de gasolina e venda de passarinhos silvestres, e venda de droga. vem o kit completo. tráfico de droga de menin@s de animais. degradação ambiental é isso aí.

terça-feira, 21 de abril de 2009

MAIS, AINDA

- MAIS!

- AINDA!

- LÁ!

- ´CAN!

- AÍ, MINHA MÃE PERGUNTOU: A ESSA HORA, VOCÊS JÁ ESTÃO BEBENDO?

- NÃO, NÓS AINDA ESTAMOS BEBENDO! HÁHÁHÁ.


E ainda tem gente que me acha mau humarada. Eu sei ri de mim mesma.

CANTIGA DE AMIGO ANTI-HERÓI

Vem meu amigo, anti-herói, o clarão lá na frente é só um incêndio nesta cidade da última parada do trem. Aqui saltaremos, sem nada nos bolsos, sem nada nas mãos, sem nada no coração. O dia já está perto de amanhecer, quem sabe, encontraremos uma casa velha abandonada para repousar um pouco, só um pouco, pois eu sei que o dia já vai amanhecer nesse aí que logo logo nos encontraremos. Hei amigo, daqui é melhor, eu sei que agora eu finjo confundir as gotas da chuva com as suas lágrimas só porque um dia prometemos um pro outro que íamos aguentar forte. Mas, porra, já jogomos tudo isso fora, e o dia já está quase engolindo tudo, e lá na frente há uma clarão que assusta mas é só um incêndio nesta cidade da última parada do trem. Estamos tão soltos e os nossos sorrisos são tão leves que até parece que por aqui não tem gravidade, que nada mais tem gravidade. Não, não, não espere a poeira que remói o vento agora o teu rosto rebater. Agora, nada, só mesmo uma casa velha abandonada pro dia amanhecer.

O que faz daquele que caiu tão genial e essencialmente superior aos demais é saber que não existe nada de divino nem substancial, fundamental no humano, o homem são caixas vazias dentro de caixas vazias dentro caixas vazias...

E, ainda temos um cigarro, fósforos e um pouco de água será tudo ... serão nossos últimos pedidos, vendo daqui a cidade ruir...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

CORTINA DE FUMAÇA

JAMES DEAN




Faço aniversário dia 11 de abril; 11, duas torres, 11, a impossibilidade de escolher, ou 1 ou 1, é decisivo, como os efeitos de um ataque terrorista. E eu tenho que seguir. E, nessa nova idade, o invasãodoazul tá com a foto do perfil nova. Para o desespero dos não fumantes, este espaço aceita fumaça. Só de pirraça. Só pra reafirmar um pouquinho as políticas de liberdade ao corpo. Só pra atiçar os que atravessam as velhinhas, mas depois passam álcool gel nas mãos.
Proibi-se e transgride-se. É isso? Ou seria a tentativa da introdução da proposta de novos paradigmas ao sentido do prazer? Talvez. Mas, o que vejo com bastante clareza é um sistema proibitivo se arregimentar tentando fazer do indivíduo um babaca criador de bichinhos domésticos. Chega a soar como um macarthismo, um purismo, proibir o fumante em lugares públicos. Fumo, não faço disso uma prática diária, e não estou aqui legislando em causa própria. E que fosse, seria legítimo (sic). A questão que pergunto é: o que estão oferecendo - o poder público e a sociedade civil - ao fumante em troca da possibilidade de sair e fumar? Ah, tá! Então, entende-se que o fumante é um pária, um cidadão que deve ter seus direitos civis cassados e que deve cumprir pena em cárcere privado?! Porque, deixemos de miopia, um sujeito, que fuma uma, duas ... carteiras de cigarros por dia, que é dependente químico, tabagista como dizem, dificilmente vai sair de casa sem "aquela coisa que contém quase 5 mil subtâncias nocivas". Vamos proibir ou vamos tratar o fumante? O que deve começar primeiro? E quem vem primeiro é a semente, e não, a planta.

quarta-feira, 18 de março de 2009

invisíveis




a fumaça levantou, deixando pra trás um rastro de sonho entorpecido de uma metrópole torta desviante de acidentes recorrentes de viadutos e seus ferros retorcidos. a fumaça levantou no quarto kitsch da lona vermelha da cama do motel barato e urros mecânicos de xoxotas televisivas. A fumaça levantou enquanto eu lembrei que não estava presente nos grandes marcos do século XX e que provavelmente não estarei nos do século XXI, e que por isso mesmo faço dessas ruas torpes o palco das minhas poucas glórias, e tento delas extrair todo o viço. a fumaça levantou, e eu acabei de seguir, e você nem sabe o meu nome e nem saberá. A fumaça é efêmera, mas ela se renova todo dia, e se levanta ...

quinta-feira, 12 de março de 2009

ANJO FREUDIANO

ÀS NOSSAS CRIANÇAS QUE TÃO BEM CUIDAMOS, COM YOGURTES E LEITES PASTEURIZADOS, URSINHOS, E OUTRAS CHANTAGENS. TÃO BEM SERVEM À NOSSA FOME QUE URRA, À NOSSA DERCARGA DE SURTOS, AGORA PÁLIDAS. AS CRIANÇAS, NADA ANJOS, SALSICHAS DESSE NOSSO MAC DOG AZEDO DE CINISMO E TARAS. AS CRIANÇAS QUE POMOS NO ALTAR E JOGAMOS NA SARJETA. AS CRIANÇAS MONSTROS, AS CRIANÇAS PÁRIAS, AS CRIANÇAS PÂNTANOS, AS CRIANÇAS LOUCAS. AS CRIANÇAS QUE SÓ TEM CARAS NAS ESTATÍSTICAS - DE CRIMES, DE OBESIDADES, DE LIQUIDAÇÕES DE SHOPPINGS, DE NÚMEROS DE AUDIÊNCIAS.

E QUE AGORA ZELAMOS NAS CHACINAS, NAS FARRAS DE BOIS PEDÓFILOS, E EM TODOS AS CONTAGENS QUE NUNCA CHEGAREMOS A DAR CONTA, TAL COMO O SEGREDO DO MENINO CHORANDO APAVORADO BEM BAIXINHO NO ORFANATO DE PADRES.

2008/12.03.2009

CARNÊS, CLICHÊS E PROMESSAS DE TANTAS CAVERNAS

Ela vai tentando ser feliz sem creme de pentear, tendo como espelho a mãe e seus carnês - baús televisivos. De brindes? Jogos e panelas de cozinhar emoções, deformando ruas em varizes, sonhos em deixas de caridades. Os sapatos gastos não servem como testamento, eles escondem passos ausentes, gestos ausentes, a felicidade principalmente. E eu ali, contemplativa, e não menos miserável, repito as crônicas de uma cidade provida por tubos mágicos, ainda. (31.03.08)
Eu pensei que o Bau da Felicidade, aquela coisa lá do Sílvio Santos, fosse uma quimera. Mas um dia eu vi, como quem vê um OVNI, uma mulher com a filha entrarem no mesmo ônibus que eu com uma sacola enorme com o emblema do "BAU". Elas tinham uma pele bem branca, quase vermelha. E estavam super mal vestidas. O primeiro pensamento que tive foi: "- as campanhas de S. S. são mais eficientes pra essa galera (a ninguenzada de Da Matta) que a publicidade de protetor solar". As criaturas tinham a pele do rosto visivelmente detonadas pelo excesso de sol. De resto, baixei a cabeça, e já nem sabia mesmo como estavam os meus cabelos e se o meu rosto ardia.

terça-feira, 10 de março de 2009

JAVALIS E CORDEIROS

Fiquei avistando o meu corpo daqui
Partindo junto com os javalis em disparadas
Arrastando cordas e cordeiros
Ao final, só seus corpos estariam a salvo
E alguns bobos ainda acreditavam se tratar de um lugar alegre

domingo, 16 de novembro de 2008

NO VIÉS DO ESPELHO

Você vai calçar seu par de tênis vermelho,e me dizer que tudo mudou. Por trás dos seus olhos de estrelas, estão seus óculos.
E em sua visão mais profunda mora uma insistente intolerância.

Calma, não sei se posso lhe amar.Calma, acho a "conquista" um saco. Pra se olhar no espelho não precisa estar acompanhado.

Não vou jogar fora alguns velhos escritos. Na parede da memória algumas lembranças me doem mais;é certo também o quanto paráfrases são necessárias.

Talvez, o melhor agora seja contemplar aquelas listras em blusas nas vitrines. Esperar alguma novidade, alguma moda.
Torcer pra que tudo esteja sempre bem.Quando o orgulho é o próprio umbigo, vale pouco qualquer outra vida.

Dentro do box, no banheiro,vou aplaudir qualquer outra neurose que eu tome como genialidade. Os pingos d´água vão molhar o chão do quarto. Vou sorrir a contento; lembrar o quanto é bom estar só.

Calma, não sei se posso lhe amar.
Calma, acho a "conquista" um saco.
Pra se olhar no espelho não precisa estar acompanhado.

... no viés do espelho escancara-se qualquer farsa ...

gardenia dultra, 1998.

A PERMANÊNCIA NO JOGO

Seu sangue branco escorre pelas narinas. Evidencia certa realidade de potência, mas não lhe dá paz. O genuíno sangue talvez já não exista. A mão pela testa, pelo suor - sua força liberada. Vontade depositada entre o movimento e a inércia. Passa pela sua cabeça que a paz é um porto morto e parado. E que o contrário está em alto mar. Os olhos por mapas nas paredes. Tenta ver a medida entre pontos distintos e não opostos. Talvez um falso equilíbrio distante. Delirante?

Reconsidera suas mãos ao acaso. Retira-se da estrada que lhe é fatal. O caminho induzido é o não-ser. E agora não existe alegrias nem tristezas. Só algumas idades, cálculos, a métrica do passo. A contradança. A PERMANÊNCIA NO JOGO.




gardenia dultra, 2003.

GAME

O MEDO DA PERDA DO OBJETO VIRTUAL.
O MEDO VIRTUAL DA PERDA DO OBJETO.
OBJETO DA PERDA DO MEDO VIRTUAL.
OBJETO VIRTUAL DA PERDA DO MEDO.
PERDA DO MEDO DO OBJETO VIRTUAL.
PERDA VIRTUAL DO OBJETO DO MEDO.

jOGANDO COM AS PEDRAS.
ESCOLHA UMA:
LOTERIA E FOGO,
PERDA E MEDO.

A CABEÇA RI DOS ERROS QUE ELA COMETE.
A CABEÇA BERRA

COM OS ERROS QUE SE REPETEM.
A CABEÇA GIRA COM OS ERROS QUE LHE REMETEM.
A CABEÇA É BERRO DOS ERROS QUE SE COMETEM.
A CABEÇA ERRA COM OS RISOS QUE SE REPETEM.

JOGANDO COM AS PEDRAS.
ESCOLHA UMA:
LOTERIA E
JOGO

RISO E FOGO.


gardenia dultra, 29.07.2003