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quarta-feira, 28 de abril de 2010
Intensidade. Fantasmas. Heranças
E todas as confusões que faço fazem também uma confusão sobre o outro. E outro pode também agir de maneira esdrúxula, reticente e confusa. Sensações de fracasso são recíprocas, é falsa a ideia de competição num relacionamento seja ele qual for, o máximo que pode haver é um que goze mais e melhor com a dor. Ou quem está de corpo aberto ou com uma armadura. A tal expressão "a fila anda", como se tudo se transformasse em quantitativo é mera mitologia moderna, pois a fila é a própria simbologia da inércia. E a inércia que anda é a própria simbologia do fracasso em qualquer relação: de trabalho, de amor, psicanalítico, enfim. A tentativa de esquecimento é tão nefasta quanto a minha tentativa de revirar vísceras. O problema não está na recusa, mas em como a recusa é feita.
E se a gente for pensar a recusa a partir do ponto de vista historial, a nós, brasileiros, esta vem se sedimentando há séculos, anos de massacres diários, onde somos obrigados a partir sempre, sem muitas explicações, sem dar adeus, sem deixar flores ou recordações. Esta ausência pode ser chamada de indiferença. Admitamos: somos um povo sem elos, apesar dos nossos pesadelos recorrentes, apesar dos nossos imbróglios interpessoais. O que fizemos com o degredo ibérico, a dolorosa partida dos povos africanos e o genocídio tupi-guarani? Somos ainda uma mistura disso.
Não é um problema pessoal seu ou meu. Meu grande sonho e objetivo nesse mundo é tentar reverter, ao menos minimizar isto. Que seja apenas em uma micro escala, na esfera das minhas relações pessoais. Por isso não me sinto ridícula ou estúpida por, de súbito, trocar experiências distintas de vida, só assim eu acho que faz sentido viver. De outra forma não é viver, é sobreviver. É estar presa a procedimentos técnicos racionais que não servem para libertar e emancipar, mas tão somente para condicionar e adestrar.
Quero acreditar que eu posso fazer diferente. Vendo minha herança não como um fantasma, mas como um vento que muda sempre de direção.
domingo, 25 de abril de 2010
IBÉRICOS
OS NAVIOS VEM E PARTEMMINHA CABEÇA NO MESMO LUGAR
PRESA NO CORPO
PRESO NA TERRA
A MURALHA ESTRAÇALHA
QUALQUER COISA QUE QUEIRA: MUDAR?
DOU A CARA A TAPA
JÁ NÃO DIGO SIM
MINHA VIDA É UM JOGO
TRAÇADO SEM MIM
DIGO ADEUS E NÃO VOU EMBORA
A MORTE CHEGA LENTA PELA TELEVISÃO
PELA GELADEIRA
PELO ARMÁRIO
E POR OUTRAS COISAS QUE A NATUREZA CUSTA A RECICLAR
A SODA CÁUSTICA COME RÁPIDO
O QUE A PALMA DA SUA MÃO FEZ TÃO LENTAMENTE
A PERFEIÇÃO, O LÁPIS DE COR - ROSA, VENTO ...
VEJA A BAÍA SEM SANTOS
FANTASMAS DANÇAM DOIDOS
FINGINDO LHE DEIXAR FELIZ
NESSE LUGAR DE LUZES AMARELADAS
RUAS ESCURAS
E LADEIRAS QUE LHE DEIXAM EXAUSTO
NOS MASSACRA O SAMBA
PARA ESCONDER ESSE CLIMA DE FADO
TOCA UM SAMBA SEMPRE
A FIGURA DESDENTADA
ESCONDE O CHORO NA CACHAÇA PURA
MORRE DISTANTE...
NÃO DIZ ADEUS
...DIGO A VOCÊ QUE SIGO FELIZ
REPITO PRA MIM QUE ISSO É VERDADE
DIGO A VOCÊ QUE SIGO FELIZ
REPITO PRA MIM QUE ISSO É VERDADE
E VOCÊ, CANALHA, ACREDITA ...
BRECHAS DO ENTARDECER

O medo da coragem
Olhos vendados
Fechando janelas, não há entardecer
Dias, dias, dias ...
Sombras testando reflexos tortos
Membros desconexos
A dança, os copos, a queda
Um toque abrupto
Vidros estraçalhados ameaçam
Todo mundo quer uma bomba atômica na mão
Para valer suas verdades
Todo mundo faz roleta russa
Um sim, um não, um sim, um não
Brechas do entardecer
Pétalas de um mal-me-quer
Um ruído escapa
Por uma brecha
Um sentimento
DOORS
E ainda de manhã, ônibus tremulam paisagens
Semeando fumaça em muros e narinas
Vejo o que tenho: está aqui
Bato naquele meu lado esquerdo que me deixa tão nervosa
Com mistérios
Dúvidas
Certezas
Clarezas
Clemências
Acompanho noticias e canções
Sequestros e casamentos
Pés rápidos e inertes
Dias úteis e inúteis
Tudo ligeiramente belo
Tudo ligeiramente sujo
Eu fico contente por agora excluir dualidades
Bem mal
Belo feio
Limpo sujo
Os meus olhos míopes procuram luzes e paisagens
Dias úteis e inúteis
Vejo
O que tenho está em mim
Toco o meu lado esquerdo e percebo.
ECO ESCURO
Já nem me importo com você
Estes seus olhos tão grandes
São super-heróis invisíveis
Sempre à espreita
Desse meu esboço de corpo
De tantas portas
Já nem passo por você
Cadafalso falciforme ambulante do amor
Você só me quer torto
Você só me quer morto
Você não me quer mais
Eu peço à vida nem tão longe de mim: CIDADES!
Infortúnios do meu ser
Que nem mesmo é
Dói a angústia de você me alienar
Passarelas
Viadutos
Galerias vazias são o meu lar
Você que tanto amei odiei matei
Para viver um pouco mais
Seu couro oco é duro e não me dá passagem
Sou eco escuro sem meias mensagens
Sou esboço
Sou esboço
Sou esquina
Sou seu nada, meu amor escória
Cidade
Ciladas
Acasos previsíveis me perseguem
Com seu rastro vermelho vermute e nada anil
Você é
Eu estou.
Fábula de domingo
Sua malícia no pé
Sua emoção do esquerdo
Era pra fazer decente
Andar correto, direito
Era menino respeitado
Não dava mancada
Não dava furada
Pois sabia
Só teria uma vez
Não podia haver talvez
Por certo não queria ser freguês
Ele acreditava que podia dar certo
O seu trabalho
Os aliados
No seu domingo o mutirão
E os chegados para o feijão
Tava cansado do aluguel
Queria viver bem
Não esperava cair do céu
E na semana como boy
Trabalhava, dava duro
Ao contrário do playboy que come, dorme, suga tudo
Era um cara inteligente
Não esperava o presidente
Mesmo ganhando pouco
Matando cachorro a grito
Foi comprando os tijolos, o cimento e o granito
E no domingo de sol
Empolgado com razão
Trabalhava em sua casa e não para o chefão
Ia fazendo o alicerce
Lado a lado os camaradas, os seus primos, os seus irmãos
Num trabalho coletivo, frente-a-frente, construtivo
E tudo o mais e mais que nunca
O domingo era o mais esperado dia
Prosseguindo numa segunda, pegou seu ónibus lotado "Lobato - Lapa"
Ia pegar no batente, era normal comumente
Mas enquanto batia o cartão, foi chamado ao setor pessoal
Já imaginou o que era
Muitos colegas já tinham tirado
Demissão, ele foi o sorteado, megasena de empregado
Ficar na rua, parado, de bobeira, desempregado
Ele não entendeu, o fato que aconteceu
E sua cabeça sob o sol quente estava
Faiscava
Atordoado caminhou
No subsolo da Lapa esperou a condução para casa
Lágrimas em seu rosto
Seu rosto, agora menino
Era correto, tinha zelo, não era cabeça de gelo
E em sua pouca idade, a ira foi lhe tomando
Chegando no bairro, foi logo para sua construção
Sentado nos alicerces
Chorando sem parar de pensar
Que só existia duas formas
Trabalhar e lutar ou
Roubar e matar
Ele ficou ali por um tempo
Irado, muito sentido
Com a cabeça baixa, muito triste deprimido
Talvez com um sonho perdido
E muitos jovens de hoje se perdem, se desesperam
Com seus sonhos indo embora em uma torrente de miséria
Aquela conversa de "Brasil é o país do futuro"
É conversa pra malandro que nunca soube dar duro
Ou de quem fica esperando do céu conversas pra boi dormir
Ou desgraças para sorrir
E para qualquer coincidência é mera semelhança
E a trama acaba aqui
Nada foi resolvido
Nem o mocinho matou o bandido
Nem o galã ficou com a princesa
Nada disso aconteceu
Foi mais uma pegadinha para lhe dopar em seus domingos.
Uma noite qualquer, num instante em que você quer estar feliz
Não incomodaria tanto
E querer se vingar agora
É um capricho estúpido e mesquinho
Quantos já cantaram o amor e a amizade?
Às vezes, farsas, pactos de mediocridades
"Eu lhe aceito, você me aceita"
Muitas máscaras para encobrir grandes defeitos
O lítio, o prozac recheiam aqueles grandes amores falsos
Um ponta pé na cara e um sorriso de contemplação
E seu corpo ali cansado
E você ali delirando
Sem a permissão da sua mãe
E alguém ali do seu lado ainda espera que você diga:
"Tudo bem, você é genial, mesmo dentro do banheiro, esfregando a cara no espelho"
E se isso não acontece:
"Oh, sinto muito, tchau"
Nada mais previsível que esta miserável união
Alguém querendo que você diga: "tudo certo, tudo bem"
Mas, se não...
Se você fica ali delirando sem a permissão da sua mãe...
...você já não convem
Mas, querer se vingar agora é uma capricho estúpido e mesquinho
Porque não, não
Não é verdadeiro e cruel
Vai matando lentamente
Aos que vão trabalhar cedo
São as pequenas dores
São as pequenas dores
...e no outro dia, a ligação é para você
...e você aceita o convite para sair
Mas você sabe, não deveria ir
Mas talvez você já não consiga dizer não às pequenas dores
Em caso de incêndio, deixe queimar!








"O que fazer em caso de incêndio" é uma comédia anarco-existencial que brinca com o destino da juventude do final dos anos 1980. O cenário é uma Alemanha ainda com o muro de Berlim, quando jovens ocupavam casas abandonadas e ali produziam música, filmes, ação direta contra o sistema e muita intensidade em suas relações de vida.
Título: "O QUE FAZER EM CASO DE INCÊNDIO" (What to do in case of fire?")
CADA CARA
Os ossos estão formados. A expressão no rosto esconde o coração que caminha pro enfarto. Você já sabe como ter o pão, o leite, o "gim das crianças". Anda, se defende, e em algum tempo já se volta contra o chão, colchão de espuma e solidão. Pensa, não corta os pulsos, mas hesita em viver. Está no meio, no meio da vontade, metade do desejo. Quer esmurrar a parede, as espumas são piores que as amarras - esses carbonos loucos. Ninguém lhe ouve, paredes de espumas.
Nenhum corpo cai naquela noite, daquele prédio. Pra aquele homem, as estrelas quando caem não tem mais força poética. As estrelas no céu, quando tem força poética? Não pensa, age, é quase patético e vai se vestir. Vai à benção todos os dias, ao Senhor Deus do Trabalho. Ovelha pálida. Não seria justo dizer seu nome, sua raça, em qualquer lugar você é o mesmo, com seus medos. Você é 30 bilhões de pessoas. E quando do precipício não ecoa mais surpresas, o fantasma é cada cara, é o começo, o começo do fim.
Gardenia Dultra, setembro 1998.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
HOTEL DE ESTRANGEIROS
A casa do Senhor da Estação estava intacta e agradavelmente velha. Olhando aquela sala, a mesa sem pintura, as velas, as cortinas encardidas tremulando pelo vento trazido pelos trens; era um grande retorno n´alma.
Para a sua geração, a moça estava distante dos tipos que a época proporcionava. Muito pensativa e centrada para as tagarelas da província e sagaz para as cortesãs dos senhores. Vivia como um ser distante, como um ponto de chegada e partida, talvez influenciada pela infância na casa do Senhor da Estação.
Ali, quando criança, corria para a estação logo quando ouvia o apito do trem e olhava atenta os vagões e suas cargas, seus caixotes, suas malas de madeira. Os passageiros trazendo o olhar distante e triste de quem deixou alguma coisa para trás. Aqueles crianças sentadas sobre os caixotes , as mães a olhar para o tempo interrogativas e os homens aquecendo o corpo com aguardente de cana. Era interessante, nenhum ficava completamente ébrio, não se deixavam ficar, e assim que ficavam com os corpos ardentes, tomavam suas bagagens e quase sempre comentavam que iam conseguir.
Como ela olhava invejada para aqueles meninos que corriam astutamente para pongarem no trem - como queria fazê-lo. Mas não podia, morava na casa do Senhor da Estação. E, além, era uma menina, todos reprovariam.
Olhando a estação através da janela, da música, das velas, ela retomava a mesma emoção que lhe preenchia quando antes da sua primeira despedida. E era pra isso que tinha voltado, para recobrar o impulso, a determinação que havia perdido para voltar e lançar-se em um mundo afiado. Queria recobrar esse impulso, já que ela agora estava arrefecida, desintegrada, quase decapitada.
Só através daqueles cômodos, daquela estação, estaria recobrando a sua própria história e um motivo para estar viva, confiante, altiva.
Foi na casa do Senhor da Estação que determinou-se a não servir como cortesã nem para conviva provinciana. Tomou sua valise e adentrou o vagão mais simples do trem onde todos falavam alto dos seus próprios planos de partida e dividiam alimentos. Todos rumavam para São Carlos, a capital da província. Foi naquele vagão que soube do Hotel de Estrangeiros e na chegada a São Carlos se dirigiu para lá.
Sabia muito bem o que buscava em São Carlos: queria lançar-se às letras ou dar a vida por uma causa. Como a Madame Juju havia sido cordial para com ela no Hotel dos Estrangeiros. Aproveitando o abrigo, começou a pensar numa forma de conseguir uma colocação já que não trazia consigo uma carta de recomendação. Ali, na cidade de São Carlos, exceto no Hotel de Estrangeiros, não passava de uma forasteira.
Dia e noite tomava a sua mente a necessidade de trabalhar para se manter. E, aos poucos, a pretensão de se dedicar às letras ia ficando longe, como o trem e a casa do Senhor da Estação. Apesar de no Hotel de Estrangeiros passarem muitos jovens intelectuais, nada conseguia para si como uma colocação. Já devia dois meses a sua vaga, mesmo, se achava angustiada e sem forças para buscar. A sua alegria havia partido e apesar das fonfarrônicas conversas no Hotel, já não encontrava motivo para contentar-se. E, o que, a princípio, achava gracioso e erudito nos jovens que ali frequentavam, agora lhe parecia falso e grosseiro, já que todos ali eram filhos bem nascidos das famílias dos Gerais. As moças, apesar de conhecedoras dos assuntos da época, ainda se apressavam a enfeitar-se e abluir-se para os jovens educados e gentis.
E ela não contava com ninguém, além da simpatia gratuita da Madame Juju. Agora, a única coisa que podia fazer era recordar os olhos tristes, a capa preta do Senhor da Estação e suas palavras: "para os que sofrem: a sua terra de origem". Mas para ela seu lugar de origem eram os trens indo e vindo. O vento ainda soprava as cortinas e, como quando menina nas noites de luar, ela abria as janelas e tocava um velho bandoneon, ela contemplava a noite na estação, a capa do Senhor e seus olhos tristes arrancando pra si inspiração para a vida.
Nos outros aposentos do Hotel de Estrangeiros comentavam-se que ela enlouquecera. Ela, os trens, os olhos e a capa preta do Senhor da Estação.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Rapiado
Vai à tevê procurar o seu amor/valor
Fala do nordestino como um grande salafrário
Mas não sabe a causa de seu baixo salário
Não acredita em nada
Apenas tem fé
Vira estatística
Mais um objeto qualquer
Que não sabe a sua história
Que não sabe o porque
Talvez pra comprar o pão
Ou pra trabalhar pro patrão
E levar mais uma vida vazia
Correria, correria, correria
Um objeto qualquer
Como seu pai espatifado no chão
Menos um pai
Mais um morto
Mais um filho torto
A se virar como louco
Mas ele não quis saber
Mas seu avô veio um dia trazendo o maculelê
Ele queria era caçoar
É nordestino, preguiçoso
É nordestino, horroroso
Mas ele não quis saber
Correria, correria, correria
E ele se achava esperto por nunca ter ouvido: "menino, caminho da roça"
Mas mesmo trabalhando duro em seu caminho tava a ROTA
A lhe pedir documento, dar batida em sua casa
A virar a casaca, dar palpite, coisa e tal
Mas ele não quis saber
Mas seu avô veio um dia das bandas de Mucugê
Ele queria era caçoar
"É baiano, preguiçoso, vagabundo, horroroso"
Assim, podemos ver que esse tal sujeito
Renegou o seu passado
Cuspiu na pia de prato
É um traído traidor
Um enganado enganador
Mas se for pra revirar tudo vira conversa comprida
Muito chata e repetida
E esse tal sujeito é um homem nacional
Que renega a sua história, e o resto, etc coisa e tal.
Tevê eixo Rio - São Paulo
Boris Casoy com seu paulistês vai fazendo comentários que se pretendem esclarecedores e politicamente correto, tais como: "violência gera violência"; "isso é uma vergonha", e outras exclamações que assistidas sob uma ótica levemente mais aguçada tem-se a constatação que as classes formadoras de opinião em pouco diferem do público médio quando aprisionado no trânsito xinga impotente a mãe de todos.
Casas populares
Espelho
Agora vou encarar você, Gardênia. Onde quer que você esteja, já não tenho mais medo de você. Fecharei os olhos, para depois olhar no espelho, para tentar descobrir um pouco mais sobre você. Não, não, não se espante comigo, agora falo para quem quiser me ouvir. Quero poder tocar a sua mão, olhar nos seus olhos - eu sei o quanto falo de clichês.
Agora, somos uma só. Mas depois eu me volto contra você e lhe deixo falando sozinha. Mas depois, largo tudo pra lá, e vou encontrar outro alguém para falar sobre você. Na verdade, somos nossas piores inimigas íntimas. Somos a água e o óleo, ainda assim somos uma só.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh....!!!!
Um Vácuo Árduo
E você
Onde passou?
Por onde vai ?
Só.
E eu?
Não sei
Porque um medo
Um nada
Um vácuo árduo
O medo enfim
Só
E eu?
E você?
Alguém?
Onde passou?
Onde vai?
...não sei...
Gardenia Dultra, 1993
Zaz traz
o mato nasce por si só
as abelhas voam ao nosso redor
ferroada
as cabeças nos trazem ao mundo
mas o mundo não traz o que a cabeça traz
zas traz
ferroada
será difícil tirar os ferrões
a cabeça em decadência não enxerga os paralelos que se constroem?
até quando cantaremos o fim dos tempos?
Gardenia Dultra, 1989.
INVASÃO
A se estrompar
A sofrer
E a trampar.
Trampolim da metrópole.
Fábricas.
Supermercados.
Ruas
Casas.
Edifícios.
Carros.
Aviões.
Mangues e esgotos
Esgotos industriais
Que invadem as ruas da invasão
Que leva o nome de um senador.
1989.
CORPOCIDADE
Traças e caracóis de pensamentos
Revólver sem nem pedir desculpas
Você assim faz
Como um franco atirador de imagens
Como fraca refletora de si
Você assim faz, mas nem sabe
É falsa a ideia de te ter pra sempre
Nesse vício, as virtudes são heróicas
Mais uma vez grito seu nome
Você amplificadora nossa
Caixa de ressonância de abismos
Lacre da felicidade alheia
Salvaguarda do éter da inveja
Que viceja em móveis corpos
Mobile phones são teu refrão:
Cidade Morta
Cidade Adeus
Cidade Carne de mães alucinando filhos em preces nunca ouvidas
Quando o assunto é desabamento
Quando o assunto é contenção, não encosta
Sou teu arco, arpoador
Sou tua glória, teu orifício
Canabrava de badameiros e pérolas cultivadas
Sou teu perfume chanel quebrado nas escadas dos teus prédios
Sou o inferno da tua ceia repleta de sonhos americanos
De tantos plásticos brancos
E as bandeirolas são cadáveres do ritual cabloco que você chacinou
Sou bola e neve
Sou nuvem e céu
Sou sol e chuva
Sou a condensação do nada
Por ter tudo, você se diminui
Como um anti-fermento infernos de crianças iluminadas por restos de drogas
Que colam a tua mobília super-luxo
Sou éter do cadáver, feto, mal vestido e torpe
Sou teus filhos apátridas
Sou pastor da ovelha negra
Sou um negro quase branco de tanta palidez de vísceras vermelhas
Sou imortal, pois que sou tua peste
Pois que sou o teu não querer ser, assim teu infinito
Não precisa ter rosto, não precisa ter voz
Eu sei, você sempre se faz de desentendida
Como é próprio das damas vitrines
Sorrisos plásticos são moda: vão e vem
Como você que insiste em sempre ser
Mesmo tão distante de mim e de outros milhões de cajazeiras
De olhos Vesúvio
Você é cidade
Eu, apenas corpo
Você, voz da voz
Que eu até queria ouvir para uma acalento
Você é um querer sem nunca ter estado
E eu conheço artimanhas do subproduto de teus meninos senis, como eu
Envelhecidos prematuramente por nefrites e outras pneumonias
Sem nem sequer pneumáticos preservativos
Por que você me pariu?
Parta!
Ponta de lança presa aos meus fragmentos.
Arraste-me por eras
Esqueça teus fósseis
Eu sou novo e sou um deles
Certezas da metafísica da tua miséria
O teu querer ser constante
A tua ébria lucidez entorpecente, pois necessitas
E eu? Mais nada
Eu, mais nada que essa chuva ébria.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Fall american dream

Imagem
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Stroszek

Melancólico, arrebatador. Um radical e sútil manifesto contra o adestramento promovido pelo sonho americano. Stroszek é de uma poesia avassaladora, com seus personagens excêntricos e marginalizados pela Pavlov society. Mais uma obra do brilhante Werner Herzog . O final com a "dança da galinha" é tragicômico. Uma produção alemã de 1976.
Alien: O oitavo passageiro



Um samba tipo Leci
Samba, chora, ri.
Ama na minha que a vida navega.
Sentimentos não dão trégua.
Puros nas minhas veias, amor.
Vou descendo todas as ladeiras da cidade pra ti.
Não, não esqueci das injustiças que rolam por aí.
Cidade louca e sol.
Escaldam a minha, escaldam a minha mente.
Mas contigo, eu já sei, eu sigo em frente.
Escorrega comigo.
Brinca comigo.
Luta junta comigo.
São Sebastião em 20 de janeiro vai nos proteger de todas as flechas.
Sebastião, padroeiro nosso, nossa cor.
Amor de cores, amor de morro.
Amor de morro de amor por ti.
Refrão:
Pega o barco à vela.
Samba, chora, ri.
Ama na minha que a vida navega.
Sentimentos não dão trégua.
Sentimento puro em mim.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
PEQUENO
quarta-feira, 3 de março de 2010
PARTNER
VOMITA TUAS PALAVRAS NUM SONHO E VOLTA REVÓLVER CHEIO DE ALÍVIO E LUCIDEZ.
ERGUE TEU CAMINHO COMO BANDEIRA HASTEADA SOBRE AS CINZAS E SEGUE SEM PALAVRAS COM SINFONIAS A TE EMBALAR.
CORRÓI, ESQUECE, COLABORA CONTIGO MESMO. SOZINHO E AFLITO. CHORA, MENINO E SEM PEITO PARA MAMAR.
PREPARA A TUA MUNIÇÃO: TU, A VIDA, E TALVEZ MAIS NADA.
NÃO FAZ ASSIM: ESCONDENDO-TE NESSA MULTIDÃO. DESCOBRE A TUA FORÇA. DESCOBRE A TUA GRAÇA. O QUE TE FAZ BEM PODE ALEGRAR O MUNDO TAMBÉM.
NÃO COMPARE, COMPREENDA. O MUNDO NÃO SE ALCANÇA PERDENDO-TE EM ALUCINAÇÕES.
MESMO QUERENDO O TANTO QUE TE FALTA, É POSSÍVEL NÃO SE PERDER EM COISAS VAGAS. ALGUÉM AINDA PODE TE OUVIR MESMO QUE EM ECOS.
SE ELA NÃO É TUA, COMO TUAS AS PALAVRAS, ESQUECE AS DEFINIÇÕES: ELAS NÃO SÃO CLARAS.
NÃO TE FAZ DE MINOTAURO PERDIDO NO LABIRINTO DAS TUAS PRÓPRIAS
VÍSCERAS.
ÉS.
ÉS.
E MAIS NADA.
ASSIM COMO EU, ESTAREMOS SÓS, AINDA QUE ACOMPANHADOS.
O TEU OLHAR É BELO.
O MEU OLHAR SOBRE ELE É REAL.
INCONCLUSO E FRUSTRANTE
Quero a liberdade, sou apenas um louco.
Ponha uma camisa de força,
Não agüento a liberdade, sou um louco.
Atire o preço de cada praga que se escolhe.
Faça uma liquidação em praça pública.
Solte todas as grades das feras,
E faça delas protagonistas de propagandas de margarina.
Arrume a casa e não esqueça o principal:
estraçalhe na parede as flores do vaso.
Em seguida, faça alguma coisa pelo nosso amor, dê um tiro bem dado no televisor.
Rasgue sua cara no espelho.
Cuspa o que sobrou no prato e decore com ervas frescas.
Bote preço na sua dignidade, quero comprá-la,
e largá-la num canto como um livro não aberto;
é apenas um capricho
Também estou aprendendo com os tubarões:
a cuspir e escalpelar na hora da sobremesa.
A refeição principal é o riso das torturas que se farão a seguir.
Mande alguém atrás de mim,
mas sem flores, obrigado.
A sua vil delicadeza já fez o necessário estrago.
Agora perfume-se no melhor francês,
esteja bela para o feio, o sujo, o perverso.
O fim é assim inconcluso e frustrante
O8. 04. 2004
GARDENIA DULTRA
terça-feira, 2 de março de 2010
SEM AIR BAG
BABY, DAQUI A CIDADECONCRETOCHUMBO É DE ALGODÃO.
ENCHARCADO DE SONHOS POSSÍVEIS.
NÃO TENHA MEDO
DÊ-ME A SUA MÃO, PALMA PLANTA ...CHÃO.
MEU CORAÇÃO CORRE ALTO SEM AIRBAG
SEM JURAS, ME NAMORE
SEM JURAS, ME DEVORE
CORRENDO ALTO SEM AIRBAG
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Janelas sem perspectivas
Quando não há remédio.Quando as ladeiras de Olinda já não trazem Cantigas e Maracatus.
Quando na ausência há necessidade de presença.
Quando as pedras rolam, rolam ladeira abaixo levando na sua enxurrada o fogo. O fogo e a casa. A casa e o fogo do louco.
O louco existe em seu anonimato escrachado. Excreção.
As janelas sem perspectivas mostram.
Mostram no fogo do louco
Salvador simulacro
1. MacDonald Totem;
2. Carros, muitos carros;
3. Cidade ao fundo, sem incomodar
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Meninos de cádmio
Cárie, care
Bole na boca, lambuza os dedos.
Busca cérebro e coração.
Espatifa-se no chão
amor náufrago
Mas o amor é isso. É o marzão; a paixão; o tesão; a solidão, a compulsão; a pulsão; a perdição.
E você, covarde, jamais esperaria de alguém tamanha coragem.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
coração doido
terça-feira, 3 de novembro de 2009
o caminho até o paraíso
SETENÇA
NINGUÉM!
ALGUÉM?
CÂNCER, CRATERAS.
BASTILHAS, BOTOX.
TEMPO, TIRANOS .
UM MURO.
UM ABISMO.
UM ALVO, UMA FUGA.
NINGUÉM VIVE IMPUNEMENTE.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
TÊMPORAS
O gosto do tempero amargo.
Tempo perdido rumina na boca.
Temperos de um tempo não linear.
Ter tempo espero, com erros e acertos
Eros.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
LUGAR

sexta-feira, 22 de maio de 2009
Extrapiramidais
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Salvador, terça feira, cinco de maio de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
DORES AMENDOIM
terça-feira, 21 de abril de 2009
MAIS, AINDA
- AINDA!
- LÁ!
- ´CAN!
- AÍ, MINHA MÃE PERGUNTOU: A ESSA HORA, VOCÊS JÁ ESTÃO BEBENDO?
- NÃO, NÓS AINDA ESTAMOS BEBENDO! HÁHÁHÁ.
E ainda tem gente que me acha mau humarada. Eu sei ri de mim mesma.
CANTIGA DE AMIGO ANTI-HERÓI
O que faz daquele que caiu tão genial e essencialmente superior aos demais é saber que não existe nada de divino nem substancial, fundamental no humano, o homem são caixas vazias dentro de caixas vazias dentro caixas vazias...
E, ainda temos um cigarro, fósforos e um pouco de água será tudo ... serão nossos últimos pedidos, vendo daqui a cidade ruir...
segunda-feira, 20 de abril de 2009
CORTINA DE FUMAÇA
Proibi-se e transgride-se. É isso? Ou seria a tentativa da introdução da proposta de novos paradigmas ao sentido do prazer? Talvez. Mas, o que vejo com bastante clareza é um sistema proibitivo se arregimentar tentando fazer do indivíduo um babaca criador de bichinhos domésticos. Chega a soar como um macarthismo, um purismo, proibir o fumante em lugares públicos. Fumo, não faço disso uma prática diária, e não estou aqui legislando em causa própria. E que fosse, seria legítimo (sic). A questão que pergunto é: o que estão oferecendo - o poder público e a sociedade civil - ao fumante em troca da possibilidade de sair e fumar? Ah, tá! Então, entende-se que o fumante é um pária, um cidadão que deve ter seus direitos civis cassados e que deve cumprir pena em cárcere privado?! Porque, deixemos de miopia, um sujeito, que fuma uma, duas ... carteiras de cigarros por dia, que é dependente químico, tabagista como dizem, dificilmente vai sair de casa sem "aquela coisa que contém quase 5 mil subtâncias nocivas". Vamos proibir ou vamos tratar o fumante? O que deve começar primeiro? E quem vem primeiro é a semente, e não, a planta.
quarta-feira, 18 de março de 2009
invisíveis
quinta-feira, 12 de março de 2009
ANJO FREUDIANO
E QUE AGORA ZELAMOS NAS CHACINAS, NAS FARRAS DE BOIS PEDÓFILOS, E EM TODOS AS CONTAGENS QUE NUNCA CHEGAREMOS A DAR CONTA, TAL COMO O SEGREDO DO MENINO CHORANDO APAVORADO BEM BAIXINHO NO ORFANATO DE PADRES.
2008/12.03.2009
CARNÊS, CLICHÊS E PROMESSAS DE TANTAS CAVERNAS
terça-feira, 10 de março de 2009
JAVALIS E CORDEIROS
Partindo junto com os javalis em disparadas
Arrastando cordas e cordeiros
Ao final, só seus corpos estariam a salvo
E alguns bobos ainda acreditavam se tratar de um lugar alegre
domingo, 16 de novembro de 2008
NO VIÉS DO ESPELHO
E em sua visão mais profunda mora uma insistente intolerância.
Calma, não sei se posso lhe amar.Calma, acho a "conquista" um saco. Pra se olhar no espelho não precisa estar acompanhado.
Não vou jogar fora alguns velhos escritos. Na parede da memória algumas lembranças me doem mais;é certo também o quanto paráfrases são necessárias.
Talvez, o melhor agora seja contemplar aquelas listras em blusas nas vitrines. Esperar alguma novidade, alguma moda.
Torcer pra que tudo esteja sempre bem.Quando o orgulho é o próprio umbigo, vale pouco qualquer outra vida.
Dentro do box, no banheiro,vou aplaudir qualquer outra neurose que eu tome como genialidade. Os pingos d´água vão molhar o chão do quarto. Vou sorrir a contento; lembrar o quanto é bom estar só.
Calma, não sei se posso lhe amar.
Calma, acho a "conquista" um saco.
Pra se olhar no espelho não precisa estar acompanhado.
... no viés do espelho escancara-se qualquer farsa ...
gardenia dultra, 1998.
A PERMANÊNCIA NO JOGO
Reconsidera suas mãos ao acaso. Retira-se da estrada que lhe é fatal. O caminho induzido é o não-ser. E agora não existe alegrias nem tristezas. Só algumas idades, cálculos, a métrica do passo. A contradança. A PERMANÊNCIA NO JOGO.
gardenia dultra, 2003.
GAME
O MEDO DA PERDA DO OBJETO VIRTUAL.
O MEDO VIRTUAL DA PERDA DO OBJETO.
OBJETO DA PERDA DO MEDO VIRTUAL.
OBJETO VIRTUAL DA PERDA DO MEDO.
PERDA DO MEDO DO OBJETO VIRTUAL.
PERDA VIRTUAL DO OBJETO DO MEDO.
jOGANDO COM AS PEDRAS.
ESCOLHA UMA:
LOTERIA E FOGO,
PERDA E MEDO.
A CABEÇA RI DOS ERROS QUE ELA COMETE.
A CABEÇA BERRACOM OS ERROS QUE SE REPETEM.
A CABEÇA GIRA COM OS ERROS QUE LHE REMETEM.
A CABEÇA É BERRO DOS ERROS QUE SE COMETEM.
A CABEÇA ERRA COM OS RISOS QUE SE REPETEM.
JOGANDO COM AS PEDRAS.
ESCOLHA UMA:
LOTERIA E
JOGO
RISO E FOGO.
gardenia dultra, 29.07.2003

















Ali no cruzamento do Campo Grande com a Araújo Pinho, Duchamp desceu.

