quinta-feira, 2 de agosto de 2012


contente ficarei
quando bateres a porta

lá fora
um vento novos encontros
corajosos na entrega e afeição
cuidadosos ao tratar com fantasmas

desconfio
desse torto querer bem
linfa reverso
invade o sangue com cinismo e indiferença

lá fora
um vento novos encontros
aguerridos ao lidar com o fantasma que desagrega
os fantasmas merecem mais que as vísceras do rancor ressentimento traição

lá fora
sigo altiva afastando os mercadores da amizade
os claudicantes viciados no toma lá dá cá
dependentes do doce veneno dos bajuladores

lá fora
fecha a porta quando me vires
respeito teus medos
és tu que não respeita os meus 

" Life is beautiful"  instalação de 2009 do artista iraniano Farhad Moshiri.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

memóide

montagem por invasaodoazul -  imagem do filme "the_hunchback_of_notre_dame (william dieterle, 1939); meme "sweet_jesus_face"
por invasaodoazul*










eu não quero rir nem compartilhar gravuras do breu de intensa luz branca caverna forçando um sorriso diante do medo de arriscar certeza da penúria ante a incapacidade de ser só amorte desertos crescem proliferam placebos verdades tal o eclesiastes autorizados a curtir promessas que nem mesmo fantasiaram não sou o mesmo que a rapariga óculos escuros velho venda no olho rapazinho estrábico cego pistola cão lágrima não sou um meme mármore atenuando o diferente efêmero engenharia duplipensar palavras condensadas fabricam dóceis consensos riso velho surpreso a novas febre-imagens espelho para si pai patrão policia o jogo mimesis monalisa do momento xerox ri melhor no espelhopseudocerteza ri muito demais e mesmo e mais e ainda romancequantidade reprodução superpotência de gárgulas escoadouros de gargantas ávidas replicantes memóides eufóricas estéticas anônimas comuns compartilhadas ganchos desconhecedores do fim







* montagem por invasaodoazul - imagem do filme "the_hunchback_of_notre_dame (william dieterle, 1939); meme "sweet_jesus_face"



terça-feira, 26 de junho de 2012

por invasaodoazul
maiakóvski me fez ver a poesia visceral e intensamente. valeu! camarada, brother, irmão!

sexta-feira, 22 de junho de 2012


PRACUNTUM CRECK BUM



A PARANÓIA DISSEMINADA COMO PRAGA NO TELEFONE CELULAR

Todo mundo conectado
e feliz por infeliz estar

 

O CO2 na cara

O ônibus velho na descida da Contorno escarra
Meus olhos explodem lágrimas
Mas olho pro céu só para ocultá-las
E então vejo um prédio barroco no Comércio

     A Cidade Baixa
Baixa o desencanto em Salvador
Enquanto todos os santos estão loooonge, vixe!

Sacudo o corpo
E tento curar o sufoco
E o soco na feira das Sete Portas
Procuro a barraca das sete ervas
Para agüentar os sete dias
E escapar dos sete palmos
E conseguir as sete vidas
E ENCARAR O ardil QUE escapa pelo ladrão
Disfarçado no molejo pagão
Entra nas narinas como cânfora
Ou como urina nas esquinas do carnaval
Lança a âncora
Prende o laço
E divide a população entre os espertos e os palhaços
Premiando quem está disposto a ganhar com o bagaço
Com o engano, a chantagem e a traição 

Tiros para o alto

Mãos ao alto  
Eu me rendo ao assalto
Arrastam minha cara no asfalto
E logo logo sou forçada a confessar tudo
Torturados, mas somos tão alegres
Desdentados, mas somos tão alegres
Desempregados, mas somos tão alegres
Massacrados, mas somos tão alegres
Infantilizados, mas somos tão alegres
Folclorizados, mas somos tão alegres
Assassinados, mas somos tão alegres
A Bahia é linda
É tudo tão etéreo
Ou não
Agora os tambores
Abafam os tiros
Nas costas do menino

gardênia dultra

terça-feira, 19 de junho de 2012

Presentificando um futuro no deserto, uma cor fala por multicores amparados no calor dos que se aquecem no romance alheio. Mantras, ecos, preces fazem uníssono pois planeiam sobre desesperos um lugarzinho pra si, agora bem mais eficientes em seus refrões. Adiando no corpo a dor, prometem pra si um paraíso vindouro. Majestade: não haverá miséria alguma, acreditam todos, e nem mesmo as crianças veem o rei nu. Florestas crescerão com palhaços em seus arcos dourados e todos compraremos bem barato da china as tais crenças no conforto - tudo irá se ajeitar! Já disseminamos pelas redes, todos curtiram, todos seguiram. Aqui só há lugar para otimistas, vejam os outros, com tão poucos amigos, tão antigos. Já garantimos nas baías um diálogo bonito, e por detrás de um fuzil há um homem com intenção de paz. Há evolução, há desenvolvimento, nós definimos o tema e, então, no diálogo todo mundo se entende. Vamos vencer! A todo abarcaremos, queremos, poderemos, sempre aquecidos pelos olhos crédulos que se aquecem com o romance alheio. Acabaremos com as doenças, e, quem sabe, com o corpo. Um futuro, um futuro.  


        

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Fechando os olhos ao som de fuzis


A política de drogas brasileira segue proibicionista. Isso significa que mantém as bases repressivas, moralistas e seletivas contra determinados segmentos da sociedade (o que denota o corte racista e higienista que marca o proibicionismo

Thiago Rodrigues - professor adjunto no Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense

Quando escopetas, pistolas automáticas e cassetetes estão violenta e decididamente voltados para sua cara, ainda que você saiba todos os instrumentos legais que lhe protegem, o silêncio vem como resultado do medo, da impotência e de uma revolta confusa.
Casa de periferia, ali se ajeitam em dois ou três cômodos, que servem simultaneamente como quarto, sala, cozinha e banheiro, um grupo de jovens - pedreiros, empregadas domésticas, desempregados ou profissionais de serviços precários, insalubres, inseguros, mal pagos. Os blocos estão à mostra, sem reboco, portas e janelas existem por uma questão quase que simbólica, pois não oferecem algum tipo de privacidade ou segurança. O ambiente é calorento e uma ansiedade paira no ar potencializando um desconforto constante.
É uma tarde de um dia útil qualquer. Pouco importa, o cenário se repete. Pelas redondezas mercadinhos, igrejas de várias congregações, lojas de material de construção, botecos, mototaxistas, crianças correndo, homens embriagados, mães, e os cuidadores da vida alheia. Nenhuma praça. Nenhum lazer gratuito e de qualidade à vista. Atividades artísticas e culturais?! O que é isso? No ar ouve-se uma música que vários acompanham efusivamente: "(...) quem nunca namorou, quem nunca fez amor, no carro, no carro, tomou umas e outras e deu uma fugidinha, no carro, no carro (...) carro parado com vidro embaçado, cuidado, cuidado, é motel disfarçado". Ainda que carro, motel, e "fugidinha" sejam significantes com significados difusos para a maioria.
Em um sofá rasgado e sujo na "sala", um grupo compartilha o mal estar da fissura, da abstinência - os cinco ou 10 contos que aparecem com muito custo, desaparecem rapidinho com uma droga "miada e fraca" (sic), mas que continuam desejando por ser a única disponível na área. Reclamam que nem mesmo tem um goró (cachaça) ou uma pacaia (fumo artesanal) para "destilar". Conversando um pouco mais, descobrem-se as mágoas profundas de cada um ali. De repente, chegam um ou outro, com os tais cinco ou 10 contos que conquistaram em alguma diária, biscate ou reciclagem, e vão ali por não terem um espaço melhor para usarem a droga. Inevitável, o entra e sai são constantes. A vizinhança está ligada. A vizinhança vigia, controla, delata, pune. 
Na cabeça de muitos, aquele contexto não se trata de um grupo tentando algum escapismo frente a uma situação agressiva, para o senso comum são sub-cidadãos que justificam aprioristicamente qualquer ato que infrinja até mesmo as garantias constitucionais elementares da sociedade burguesa.
Não há armas, nem grande quantidade de droga. Mas por desinformação, questões de fundo psíquico ou incapacidade de diálogo, qualquer motivo fútil dá origem a bate-bocas e até mesmo a agressões físicas. Na própria condição que trazem de incomunicabilidade, divergências sempre resvalam de pronto para uma agressão verbal expressa por um vocabulário escasso e repetitivo. A gritaria, então, extrapola a porta e a janela franzinas. A vizinhança está a cada momento mais atenta como quem espera pelo grande desfecho de um filme de terror. A vizinhança já conhece bem o perfil desses personagens - eles alimentam o café da manhã, o almoço e o jantar de noticiosos em rádios, TVs e jornais impressos - garantem uma audiência sedenta pelo linchamento moral público dos que de uma forma ou de outra ficam de fora do espólio de séculos da pilhagem na terra brasilis.
Demorou! Após desferir um chute na porta, entra no cubículo o comandante da operação de arma em punho como quem está a atuar ao lado de Arnold Schwarzenegger. Com ele, um séquito de cerca de três homens fortemente armados. Um rapaz de seus 28 anos, ajudante de pedreiro e de origem camponesa, é o mais visível no dispositivo cênico do tal sofá, é, coincidentemente (?), o mais franzino e de pele mais intensamente negra. Após ouvir o berro "cadê a droga, cadê as armas?", leva no peitoral vários sopapos de um soldado aparentando medir 2 metros e físico de lutador de jiu-jítsu, que fez questão de deixar bem claro que não estava ali para ouvir respostas ou explicações. A cada tentativa de identificar-se, de demonstrar laços familiares ou outros laços sociais, o policial irritava-se mais e mais, os socos no peitoral do rapaz usuário de droga tornavam-se mais e mais agressivos. As falas tentando colocar-se como portador de alguma identidade e pertencimento social provocavam na tropa rompantes tais como: "você não é nada", "você é um verme", "não cite o nome da sua mãe", "vagabundo", "cala a boca" e lá iam mais sopapos. 
Ato contínuo, o comandante adentra o que seria o quarto do casal - na verdade um espaço que apenas identificava de forma ainda mais intensa a vida caótica e desestruturada dos moradores, pois era uma mistura de depósito de roupas sujas, de revistas velhas, garrafas plásticas vazias, restos de comida, bitucas de cigarro, cachimbos apropriados ao uso do crack, e outras coisas que sob um estado de espírito acuado pela arbitrariedade policial não se é capaz de perceber. O comandante atuava como se estivesse numa grande operação à captura de algum capo di tutti i capi, de algum Matteo Messina Denaro da máfia siciliana, um grande chefão, um super narcotraficante. O que havia realmente eram resquícios de consumo droga - sobras da substância e cachimbos - nada que se configurasse como tráfico de drogas, e um grupo de jovens periféricos acuados.   
O universo que cerca o usuário de crack estrutura-se quase que completamente nas sobras, nos restos, no que ficou de fora e retorna a algum tipo de cadeia produtiva de forma perversa e violenta. O próprio significante que nomeia a substância é uma onomatopeia referente à ruptura, quebra, crack - alusão ao som produzido quando a droga é queimada – curiosamente também usado para referir-se a momentos agudos de crise econômica. Grande metáfora para um cenário de desagregação social. A origem da droga advem da forma impura da cocaína. Os utensílios que precariamente funcionam como cachimbo são, não raro, retirados de depósitos de lixo - latas de alumínio de cerveja ou refrigerante, copos plásticos de água mineral, válvulas de aparelhos eletrônicos, lâmpadas, canetas, garrafas plásticas, ou quaisquer outros objetos encontrados pelas ruas que possam adaptar-se à forma de cachimbo, muitas vezes compostos por substâncias extremamente nocivas à saúde - como o alumínio ou até mesmo metais pesados encontrados nas válvulas retiradas de aparelhos eletrônicos. O veículo para a combustão utilizado nos cachimbos da pedra é a cinza do cigarro. Restos, restos... 
Por conta de suas características socioeconômicas e culturais, por tratar-se, em tese, de uma droga barata, relegada na grande maioria dos casos ao lumpemproletariado, o crack não traz a ritualística e glamour que cercam outras drogas largamente incorporadas e consumidas pelas classes média e alta. Quem desconhece o largo consumo de maconha nas universidades mundo a fora? Quem desconhece as festinhas do jet set regadas a cocaína? Quantas dessas pessoas do high society já tiveram as casas invadidas sem mandado de busca e apreensão? Quantas já sofreram calúnia, injúria e difamação em programas jornalísticos comandados por "profissionais" que ignoram os princípios éticos elementares do ofício? Que tratam a ética, o respeito à dignidade humana, o princípio da presunção de inocência com um tom típico dos que se locupletam com a barbárie e com a miséria, arraigados que estão ao que há de mais cruel na história desse país de capitães do mato e navios negreiros?
O usuário de crack é o mais penalizado nesse cenário de patologia social que envolve um setor estruturado, globalizado e com altas ramificações financeiras que sequer temos conhecimento devido à economia de mercado extremamente volátil,  impossível de ser regulamentada pelo estado.  A ONU estima - pois não há como definir índices precisos - que o negócio da droga movimenta mais de 500 bilhões de dólares ao ano, faturamento superior ao comércio internacional de petróleo, perdendo apenas para o tráfico de armas (Link para Relatório Mundial sobre Drogas 2011, produzido pela ONU).
Ainda assim, em muitas cidades do Brasil, o estado continua terceirizando sua "política" para setores que tratam o assunto de forma absurdamente apartada das chamadas políticas de inclusão, delegando para instâncias que pregam a execução sumária desses jovens - pobres e quase sempre pretos. Principalmente nas pequenas cidades do Nordeste, onde vemos segmentos da segurança pública desconhecer estratégias que vem mostrando-se mais efetivas que a tal "guerra às drogas" - a exemplo dos programas de redução de danos, a diferenciação clara entre usuários e traficantes, medidas socioeducativas, acolhimento em grupos orientados por equipes multidisciplinares formadas por psicólogos, psiquiatras, antropólogos, sociólogos e demais esferas de saúde e humanas.
Até quando as cercas eletrificadas postas nos muros das residências da classe média garantirão o conforto para que possamos dormir tranquilos professando uma retórica cristã ou social democrata que tanto se refere à cidadania? Até quando porteiros eletrônicos, grades, carros com seus vidros cuidadosamente fechados, empresas de segurança patrimonial garantirão uma falsa sensação de segurança?
Zonas segregadas, verdadeiros guetos, espalham-se por esse país a fora, locais onde a arbitrariedade policial deixa bem claro que ali as leis são outras, onde o estado e a sociedade destilam tranquilamente seu descaso e abandono à vida de milhares de jovens que já nascem com o destino selado de serem linchados e queimados vivos sem direito a julgamento, sob aplausos da população ignorante que vibra ao ver sangue, sob os holofotes do justiçamento da mídia. Tudo com a tolerância da sociedade culturalmente acostumada a prescrever os dignos e os indignos - que o digam os índios, os negros, os gays, os pobres, os nordestinos, os favelados, os loucos, os leprosos, os rebeldes... Os "nóia", "sacizeiros" e outras denominações que levam o usuário de crack são apenas mais uma categoria na nossa imensa lista de uma perversa dívida social que intensifica o medo, a insegurança, a violência. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

não seria demais eu esperar de todas as noites sangrentas algum deleite que alcançasse meu corpo sem cobrar de mim os excessos que cometi. flores não abrigos disfarçados de glórias, são expectativas vãs de viver em antigos confortos, são ilusões de paisagens vis. pra cantar em um baile que ainda sonho estar - sem oprimir, sem ser oprimida - por que tenho que fugir sempre? seria demais eu tocar os dias com a intensidade que meu corpo precisa? Ah, justificativas vãs, pedem sempre punições cruéis - e o mundo dá! como a obviedade da matemática racionalista, seus princípios, meios e fins. ah, ação e reação e a sua linguagem jurídica. a imputação, o vermelho, o negro, como a máquina contábil que a cidade nos detém, nos condena a pagar infindáveis impostos. qual o rosto surgirá em nós plantado pelos dias, pelas horas, pelos projetos adiados? Por que negar que ainda está lá aquela criança que sorri amarelo quando tens que flertar os tais sapos do jantar? Quisera meu medos fossem irreais, quimeras a ser sanadas com algum fármaco, um cloridrato qualquer.

sábado, 17 de março de 2012

quanto custa a nossa atenção? o valor dos nossos olhos pode ter o preço da nossa perdição, o desvalor dos nossos olhos pode supervalorizar a nossa opressão. Quais sinais estarão agora postos como setas de possíveis caminhos? O flaneur foi subornado por antigas contas do padrão, pelo desejo do patrão de domesticar potros, perdeu a manha de não despertar a fúria da vigilância e punição. Ele agora é vigiado a ser banido tal um componente indesejado do que caiu no chão. Esta metrópole do Nordeste não convida a nela banhar-se com os olhos desejantes de novas paisagens. O velho vai cristalizando rotas de fuga da visão, impelindo a cabisbaixar e a curvar-nos sobre o excesso de tudo o que é considerado lixo. A curvatura proíbe o olhar, a curvatura vitimiza,a ver os usuários do crack estrutural das cidades maniacamente catando, buscando pelo chão promessas e perspectivas de aplacar a fissura. Buscar não como meio de estruturar caminhos, buscar como mineradores cavando galerias subterrâneas a procura do que escolheram como pedra preciosa. A pedra de eleição. Quando digo "excesso de tudo que é considerado lixo" comento sim uma redundância - o lixo é o que excedeu, o que não serviu ao processo, à produção.

A doença provocada pelo crack estrutural da cidade é, dentre tantas outras, a própria epidemia do crack. A epidemia do crack é uma doença do olhar, de como olhamos a cidade, o coletivo. A doença do crack é um sintoma da negação do olhar, digo o olhar como experiência e diálogo com o que nos é diferente, externo e excêntrico.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

rasgava a cidade ao meio
sustentando com as costas seus restos
embalados em sacos pretos
bicicletas rosinhas
logo estariam junto a amontoados de preces
e feijão moeda de troco e nada mais
não tinha o que declarar
uma palavra desdita
é como declaração de morte imediata
os pés rachados da mistura que ficou do seu caminho
calor, lama e cacos de vidros repisados
causava estranheza por não acreditar na palavra amor
e como é que poderia acreditar
em dias que só prometiam mais restos de sacos, latas e plásticos
sua vida a vender garrafa pet
ele sabe do luxo por cachorro pet
comercializando felicidade por cinco reais
e crack, e cidade rachadura
e cidade baixa
e cidade alta
altas horas, segue ele seguindo sacos pretos
seguido de cachorros e uivos
a cidade chove e ele a desafia
a seguir morrendo por mais um dia

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

fez castelos, desfez pesadelos e adiou muitos sonhos

ao lado de chumaços de cabelos, lama, restos de palhas de piaçavas de vassouras velhas, bitucas de cigarro devorados por adultos ávidos. passou uma boa parte da sua infância aí. imaginava tendas de circos e rodas gigantes domingo à tarde. sabia que pouco tinham preparado para a sua insurreição à terra. a pele esverdeada e um olhar de criança autista, tinha vindo do fundo, do lado do que se evita ver. aos gritos da manhãs aflitas alentava pedindo um pouquinho mais da segurança transitória das cobertas sob telhados de amianto muriçocas famintas e histéricas e ventiladores empoeirados. ah, aprendeu a não desejar, a negar a presença do corpo que pouco sentia, apenas adiava, adiava, para outros dezembros. imaginava que tudo era tão fabricado quanto leite longa vida e vacas de presépio, ali naquele beco fez castelos, desfez pesadelos e adiou muitos sonhos. transitou a vida como uma boca que baba entre a repulsa e o mini desejo de açúcares e carboidratos.

domingo, 16 de outubro de 2011

projeto minoru yamasaki: 107 dentes acima da sua cabeça

... na sua b.o.c.a, o gosto das cinzas, da acetona, do ar que lhe faltou. comprimido que estava ao passar em r.u.a.s com seu turismo errante t.a.l como um encantador de naja, como uma nadja de andré breton, o acaso objetivo, o ocaso subjetivo de suas artérias multívagas e vozes saindo por equalizadores distorcidos, como pães que foram acariciados por diabos incapazes de ouvir uma dor sem dar uma risada de escárnio. (atenção, todos os carros, a.t.e.n.ç.ã.o, todos os carros) a sua cara cuspida encarnada em mármores de carrara qual o édipo torto que fica no jardim que vai para proferir suas palavras tortas, seus desejos obscuros e as coisas que não sabe e sabe também e esses botões que aperta tentando grafar ao menos alguma coisa precisa e aliviar sensações estranhas com objetos intransitivos. (peguem as câmeras fotográficas, peguem suas digitais). mas vieram as cinzas na boca no ar e milhares de papeis voando desde o último andar do projeto minoru yamasaki 107 dentes acima da sua cabeça, cheiro de carne queimada também dá a entender que depois da rosa de hiroshima estaria junto com as crianças no zoológico de quimeras deformadas em formol de fetos e não possuíam membros externos mas que os primeiros a se formar seriam botões de olhos assustados para atestar a sua condição de fugitivo das águas termais amnióticas. (close, close na próxima tragédia) as fogueiras hippies foram todas queimadas, assim decidiu floresta adentrar para reabastecer a lenha do fogo do princípio das suas invenções e quando viu era uma nuvem de répteis pré-históricos agarrados a seu pescoço e seu irmão lhe confidenciando pesadelos de arames farpados e genitálias castradas e que as crianças agora desmanchavam o sorriso em semblantes refletidos em doces dores de estimação. no horizonte algodões doces gelatinosos cristalizados em expressões que lhe doíam a garganta, e sua perplexidade diante da confusão que causava ao explicitar aflições quando nas mesas brasileiras só esperavam além do pão um pouquinho mais de piada ...

sábado, 15 de outubro de 2011

de costas pro ar

não pensava sobre o assunto, mas sabia que ele iria bater à porta sempre, como um portal que nunca se fecha, sempre oferecendo possibilidades de propostas de cura para a solidão. voltava á rua, seus perigos, seu fedor de mijo esquina gente esquálida, quanta droga ainda teria que tomar para aliviar e aguentar. seu dinheiro tomado por crack do seu suor tomado por dores. e a cidade lhe invadia a pele como o calor de um dia quente inevitável. todos os olhos eram olhos vigilantes sem nunca terem sido observados. suas meninas e promessas duravam apenas até o amanhecer. com o sol acaba o brilho e o disfarce. acabam-se as promessas. e ele sempre insistia em acreditar que sempre estava enganado ao se enganar. perdia a certeza que todos os seus enganos viam por escolha própria. ali, onde seu coração estava era um lugar inóspito. hospitais honoris causa pululando seus desejos fetos. suas ardências pimentas cerebrais, seu cérebro estava sempre à espreita de gretas, de fumaças, de caquinhos no chão, seu cérebro espreita inimigos invasores imediatos ameaças constantes desequilíbrios estáveis palavras impalpáveis dores cimento e alcaloides sempre insuficientes, sempre à falta. seus monstros não deixavam seus anjos descansar, seus monstros sempre despertos como o próprio ar. e foi para o último prédio do último andar e largou-se de costas para não ver a inevitável decisão do seu último andar desandar. na boca ainda sentia o gosto de cinzas do éter do ar que lhe faltou ...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

a sabedoria está lá fora, saia

coração e mente de gente são terras em que não se deve pisar, me disse hoje uma trabalhadora dando sua diária em minha casa. ela parece não mais se espantar com comportamentos escorregadios de quem a gente menos espera, aliás ela não espera. acorda às quatro da matina em castelo branco, bairro periférico de salvador. leva duas horas e meia no buzão. arruma tudo, passa e ainda faz o almoço. sempre calma e com um bom conselho pra me dar. tem sido uma grande companheira das quintas feiras, acho que ela nem se dá conta da importância que tem tido em minha vida. magrinha, mirrada, cearense. outro dia me saiu com a tirada "tem gente que vegeta na ignorância"; eu não pude deixar de rir um senso tão preciso da brutalidade humana. e pensei: "há pessoas que levam anos para descobrir que a ignorância é um estado vegetativo". rá, rá. Ainda nas suas palavras precisas me disse perplexa: "tem um canal de tevê lá casa que só passa as tragédias do rio e são paulo". rá, rá, mais crítica que isso... e nem precisou ler a escola de frankfurt. a cada dia me interesso mais pelo que está fora dos cânones da escola, a sabedoria está lá fora, saia.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

a tornar som o ruído da cidade

meu tambor descompassado manda sinais
avisos com muita antecedência que ele muitas vezes se trai
em gangorras e outros temporais
visgo de dor é pé na jaca
poesia de amor é lâmina da faca
corte preciso sem cálculo
apenas resultados de notas claras
a tornar som o ruído da cidade

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

meninogatoamendoim

meio dia!
os olhos brilharam,
- amendoim!, o menino gritou!
pequenas porções de vida doce
embalar sonhos com 1,00 R$ de planos
no futuro, satisfação agora
sua casa, minha sina
meus cartórios em quadratura com suas oito horas e cartões de ponto
beijo em seus pequenos intervalos
acarajé ao fim da tarde
junto com vento leve e primazia de outras promessas reconhecidas a um passo do sim
sem recomeço: a estrada não tem porteira nem fim
cante de novo - algodão doce, pipoca, roda gigante
euforias ao estilo de cores de bandeirolas, são joão, verduras e legumes na feira
o cheiro da infância na fruta doce de verão
acenar com possibilidades
destronar mazelas
frutificar a sorte pronta para quedas, poeiras, olhos, cinzas
meio dia e saber que ainda nos restam velocidades inteiras
das belezas dos nossos restos de dia sem dono
a formatação da dor tem cara nova para propostas velhas
mas sairemos ilesos se soubermos disso ao hastear nossa bandeira de outros escapes
sete vidas e o pulo do menino gato
amendoim, amendoim!

domingo, 14 de agosto de 2011

pulsando numa fotografia

vi ali algo mais ou menos como dizer não
você já teria voado
e meus passos foram incapazes de chegar aos seus
sua voz seus dentes
meu indiferente riso
meu olhar já capturado pela fábrica indigente
e o descompasso quando tento acertar
o ritmo compassado dos meus erros e o eco que eles fazem
prometendo imagens exatas do que já nem sou
e se eu nem me importar?
e se já não falo o que querem?
onde estará melhor os meus reflexos?
se o presente é um tempo que evitamos tanto
se o futuro é todo o nosso projeto de vida
o dia diluído em dilúvios
faço a sonoplastia com trovões extraídos de raio x
e você estará lá, e você estará lá, pulsando numa fotografia

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

MINHAS DORES DE TWITTER

Meu corpo encobre os fios dos faróis dos carros velozes
Já sinto no asfalto o suor da minha pele fria
Mas não sinto nada
Além de uma confusa sensação de saturação e vazio
Minhas digitais tocam o sino de um relógio antigo na estação de trem
Recorro aos velhos coretos para cantar minhas dores de twitter
Meu rosto sem perfil transita em uma imensidão de inexistentes redes sociais